— Anjo deve morrer antes de nós — dissera ela, fervorosa, quando Hiraga voltara, são e salvo, dois dias depois do ataque.— Ficamos todos aflitos, pensando que você podia ter sido preso e queimado junto com os outros. Foi tudo feito por ordem de Anjo, Hiraga-san. Na verdade, ele voltava da estalagem quando o atacaram, perto dos portões do castelo. Foi ele quem ordenou tudo e acompanhou essoalmente as execuções, deixando homens ali, em emboscada, para o caso de algum
— Quem nos traiu, Hiraga? — indagara Ori.
— Os samurai
— Mas Akimoto diz que os viu serem cercados e mortos.
— Deve ter sido um deles. Mais alguém escapou?
— Akimoto... ele se escondeu em outra estalagem por um dia e uma noite.
— Onde ele está agora?
— Ocupado — respondera Noriko. — Devo mandar chamá-lo?
— Não. Falarei com ele amanhã.
— Anjo deve pagar com sangue pela estalagem... foi um ato contra todos os costumes!
— Ele pagará, e os
Em seus aposentos particulares, no alto da torre do castelo, Yoshi compunha um poema. Usava um quimono de seda azul, sentava-se à mesa baixa, com um lampião a óleo e folhas de arroz, pincéis de espessuras diferentes, água para amolecer o bloco de tinta preta, que tinha agora uma poça pequena e convidativa na depressão no centro.
O crepúsculo transformava-se em noite. Do exterior, vinha o zumbido do milhão de almas de Iedo, sempre presente. Umas poucas casas em chamas, também como sempre. Lá de baixo, dentro do castelo, o barulho abafado e confortador dos soldados, cascos nas pedras do calçamento, uma ocasional risada gutural elevando-se com a fumaça e com os cheiros de comida, passando pelas aberturas ornamentadas para os arqueiros, nas vastas paredes, ainda não fechadas contra o frio da noite.
Aquele era seu santuário pessoal. Espartano. Tatames, um
Além daquele cômodo, havia uma ante-sala maior, de onde saíam corredores para os quartos, vazios naquele momento, exceto pelos servidores, criadas e
Yoshi mergulhou um pincel na poça de tinta. A ponta pairou por um instante sobre o delicado papel de palha de arroz, e depois ele escreveu, com firmeza:
O texto saiu em três linhas verticais de caracteres, curtas, fortes onde assim deveriam ser, e suaves quando a suavidade realçaria a imagem que os caracteres transmitiam — nunca havia uma possibilidade de refinar, mudar ou corrigjr sequer a menor falha, pois a textura do papel de arroz sugava a tinta no mesmo instante, fazendo com que dele se tornasse parte indelével, variando o preto para cinza, dependendo da maneira como o pincel era usado e da quantidade de água.
Com absoluta frieza, Yoshi examinou o que fizera, a disposição do poema, e toda a imagem que as tonalidades de caligrafia preta formavam no espaço branco, a fluidez e clareza de seus caracteres.
Está bom, concluiu ele, sem vaidade. Não posso fazer melhor no momento... este é quase o limite de minha capacidade, se não mesmo o limite. E o significado do poema, como deve ser interpretado? Ah, essa é a questão importante, por isso é que é bom. Mas vai alcançar o que desejo?
Essas indagações levaram-no a avaliar a lamentável situação, em Iedo e em Quioto. Poucos dias antes chegara a notícia de que ocorrera um golpe súbito e sangrento, mas vitorioso, desfechado por tropas de
Numa reunião do conselho, convocada às pressas, os ânimos estavam exaltados, Anjo quase espumando de fúria.
—
— É verdade — concordara Yoshi. — E repito que devemos ordenar que nossas tropas em Quioto entrem em ação, a fim de acabar com a rebelião imediatamente... a qualquer custo!
— Não. Devemos esperar, pois nossas forças ali são insuficientes. Toyama, o velho, coçara o queixo coberto por uma barba grisalha e dissera:
— Concordo com Yoshi-dono. A guerra é o único meio, e temos de declarar que Ogama de