Com um esforço, ele concentrou sua atenção no jardim lá embaixo, mas a ânsia persistiu. Parte do destacamento de Highlanders entrava em formação em torno do mastro, o corneteiro e quatro tambores, para o abaixamento da bandeira. Rotina. Os jardineiros se concentravam junto aos portões, para serem contados, e depois dispensados. Deixaram a legação, passaram entre os samurais e desapareceram. Rotina. Sentinelas fecharam e trancaram os portões de ferro. Rotina. Os tambores e a corneta soaram, enquanto a bandeira inglesa era lentamente abaixada... nenhum sol se põe sobre a bandeira britânica, essa era a lei no mundo inteiro. Rotina. A maioria dos samurais começou a se retirar, deixando apenas uma força simbólica para a noite. Rotina.
Tyrer estremeceu.
Se tudo é rotina, por que me sinto tão nervoso?
Os jardineiros da legação entraram em sua choupana-dormitório, que ficava no outro lado do templo budista. Nenhum deles enfrentou o olhar de Hiraga. Todos haviam sido advertidos de que suas vidas, assim como as vidas de todas as suas gerações, dependiam da segurança de Hiraga.
— Tomem cuidado ao falar com estranhos — dissera-lhes Hiraga. — Se o Bakufu descobrir que me deram abrigo, terão a mesma recompensa, só que serão crucificados, em vez de terem uma morte lenta.
Apesar de todos os protestos submissos de que ele se encontrava a salvo, de que podia confiar neles, Hiraga sabia que nunca deveria se sentir seguro. Desde a eniboscada contra Anjo, dez dias antes, passara a maior parte do tempo no refúgio em Kanagawa, a estalagem das Flores da Meia-Noite. O fracasso do ataque, com a morte de todos os seus companheiros, à exceção de um, era karma, nada mais.
Recebera no dia anterior uma carta de Katsumata, o líder clandestino dos shishi de Satsuma, que agora se encontrava em Quioto: Urgente: dentro de poucas semanas, o xógum Nobusada criará um precedente, ao vir para cá numa visita oficial ao imperador. Todos os shishi devem se concentrar aqui imediatamente fim de planejar como interceptá-lo e, depois, nos apoderarmos dos portões do palácio. Katsumata assinara com seu codinome: Corvo.
Hiraga discutira o que fazer com Ori e depois decidira retornar a Iedo, decidido a agir sozinho para destruir a legação britânica, furioso porque o Conselho dos Anciãos parecia ter sido enganado e neutralizado pelos gai-jin.
— Quioto pode esperar, Ori. Temos de atacar os gai-jin. Devemos enfurecê-los, até que bombardeiem Iedo. Outros podem cuidar do xógum e de Quioto.
Ele gostaria de levar Ori, mas o companheiro estava impotente, o ferimento pior, sem qualquer ajuda médica.
— Como está seu braço?
— Quando se tornar insuportável, cometerei seppuku — respondera Ori, a voz engrolada do saquê que tomara para amortecer a dor. — Não se preocupe.
Os três, Hiraga, Ori e mama-san, beberam juntos.
— Não há nenhum outro médico, em quem possamos confiar?
— Não, Hiraga-san — dissera a mama-san, Noriko. Era uma mulher pequena, de cinqüenta anos, a voz suave. — Até chamei um acupuntor e um herbanário coreanos, ambos amigos, mas os cataplasmas não têm nenhum valor. Poderíamos chamar o gigante gai-jin...
— Não seja estúpida! — berrara Ori. — Quantas vezes tenho de lhe dizer? O ferimento é de bala, uma das balas dos gai-jin, e eles me viram em Kanagawa!
— Por favor, desculpe — murmurara a mama-san, humilde, encostando a cabeça no tatame. — Por favor, desculpe esta pessoa estúpida.
Ela fizera outra reverência e se retirara, mas no fundo do coração censurava Ori por não ser um verdadeiro shishi, deixando de cometer seppuku enquanto Hiraga se achava presente, o mais perfeito padrinho que um homem podia desejar. Se ele assim fizesse, reduziria o perigo que a ameaçava e à sua casa. A notícia do destino sofrido pela estalagem dos Quarenta e Sete Ronin percorrera cinqüenta ri e além — uma retaliação ultrajante, matar todos os clientes, cortesãs e servidores, e exibir a cabeça da mama-san na ponta de um chuço.
Monstruoso, pensara ela, revoltada. Como uma casa pode proibir a entrada de qualquer samurai, shishi ou não? Nos tempos antigos, os samurais matavam muito mais do que hoje, sem dúvida, mas isso fora séculos antes, e quase sempre quando as vítimas mereciam mesmo morrer, não mulheres ou crianças. Naquele tempo, a lei da terra era justa, o xógum Toranaga era justo, seu filho e neto eram justos, antes que a corrupção e o desregramento se tornassem um modo de vida para os xóguns descendentes, assim como para os daimios e os samurais, que há mais de um século nos impõem seus tributos como pus! Os shishi são a nossa única esperança! Sonno-joi!