O troar de um canhão provocou-lhe um sobressalto e atraiu sua atenção para a enseada. Era um sinal. Lá longe, num ponto distante do mar, outro canhão respondeu. Angelique olhou além da esquadra, para o horizonte, e divisou a fumaça indicadora saindo pela chaminé do navio de correspondência.
Jamie McFay, a pasta pesada de correspondência debaixo do braço, conduziu um estranho pela escada do prédio da Struan, o sol passando pelas janelas de vidro altas e elegantes. Ambos estavam de cartola e sobrecasaca de lã, embora o dia fosse quente. O estranho carregava uma pequena bolsa. Era atarracado, barbudo, feio, na casa dos cinqüenta anos, uma cabeça mais baixo do que Jamie, embora com ombros mais largos, os cabelos grisalhos compridos e desgrenhados se projetando debaixo da cartola. Seguiram pelo corredor. McFay bateu de leve na porta.
—
— Entre, Jamie, a porta está destrancada.
Assim que os dois entraram, Struan olhou aturdido para o homem atarracado e perguntou no mesmo instante:
— Mamãe também veio, Dr. Hoag?
— Não, Malcolm.
O Dr. Ronald Hoag percebeu o alívio imediato e se entristeceu, embora pudesse compreender o motivo. Tess Struan fora veemente em sua condenação à “Sirigaita estrangeira” que, tinha certeza, fisgara seu filho. Escondendo sua preocupação pela perda de peso e palidez de Malcolm, ele pôs a cartola e a bolsa em cima da cômoda.
— Ela me pediu para vir vê-lo — disse ele, a voz profunda e gentil —, descobrir se posso fazer alguma coisa para ajudá-lo e escoltá-lo de volta para casa... se precisar de uma escolta.
Há quase quinze anos que ele era o médico da família Struan em Hong Kong e fizera os partos dos últimos quatro irmãos e irmãs de Malcolm.
— Eu... O Dr. Babcott vem cuidando de mim. Estou bem. Obrigado por ter vindo. É um prazer vê-lo de novo.
— Também me sinto satisfeito por estar aqui. George Babcott é um ótimo médico, não poderia ter outro melhor.
Hoag sorriu, os olhos pequenos de topázio fixados num rosto curtido e enrugado, e continuou, jovial:
— Uma viagem horrível, fomos atingidos pela cauda do tufão e quase naufragamos. Passei a maior parte do tempo cuidando de marujos e dos poucos passageiros. Braços e pernas quebrados, na maioria dos casos. Perdemos dois homens que caíram ao mar, um chinês, passageiro de terceira classe, e um estrangeiro, nunca descobrimos quem ele era. O capitão disse que o homem se limitara a murmurar um nome qualquer ao pagar a passagem, em Hong Kong. Passava quase todo o tempo no camarote e, no dia em que resolveu sair para o tombadilho, foi apanhado por uma onda e ponto final. Malcolm, você parece melhor do que eu esperava, depois de todos os rumores que chegaram a Hong Kong.
— Acho melhor deixar vocês dois a sós — disse Jamie, pondo uma pilha de cartas na mesinha-de-cabeceira. — Aqui está sua correspondência pessoal, Malcolm. Trarei seus livros e jornais mais tarde.
— Obrigado. Alguma coisa importante?
— Duas cartas de cima. Deixei por cima.
O Dr. Hoag enfiou a mão num bolso volumoso e tirou um envelope todo amassado.
— Aqui tem mais uma carta dela, Malcolm, escrita depois das outras. É melhor lê-la primeiro, e depois vou examiná-lo, se me permitir. Jamie, não se esqueça de Babcott.
Jamie já o informara que Babcott se encontrava em Kanagawa e que mandaria o cúter buscá-lo depois que falassem com Malcolm.
— Até mais tarde,
— Espere mais um pouco, Jamie.
Struan abriu o envelope que Hoag lhe entregara e começou a ler a carta.