— É um dos problemas da vontade... por mais valiosa e bela que seja. — Ele sorriu. — Láudano foi o nome primeiro dado por Paracelso a essa panaceia. Conhece Paracelso?
— Não.
— Nem eu. — Hoag soltou uma risada. — Seja como for, transferimos o nome para essa tintura de ópio. É uma pena que todos os derivados sejam criadores de hábito. Mas você sabe disso.
— Sei, sim.
— Podemos livrá-lo. Não é problema.
— Claro que é um problema, e sei disso também, como ainda sei que não aprova o nosso comércio de ópio.
Hoag sorriu.
— Estou contente que você tenha feito uma declaração, não uma pergunta. Mas sei que você também não aprova, nenhum mercador na China aprova, mas estão todos acuados. Agora, Malcolm, vamos deixar de lado a economia e a política. Podemos conversar sobre a Srta. Richaud?
Struan sentiu o sangue afluir para o rosto.
— Quero que me escute com atenção, de uma vez por todas: não importa o que a mãe diga, já tenho idade suficiente para pensar por mim mesmo e posso fazer o que bem quiser. Entendido?
Hoag tornou a sorrir, afável.
— Sou seu médico, Malcolm, não sua mãe. E também sou seu amigo. Alguma vez lhe falhei ou a qualquer pessoa de sua família?
Com esforço visível, Struan conteve a raiva, mas não pôde fazer a mesma coisa com o coração disparado.
— Desculpe, mas eu... — Ele deu de ombros, desamparado. — Desculpe.
— Não precisa pedir desculpas. Não estou tentando interferir em sua vida particular. Sua saúde depende de muitos fatores, e parece que ela é um dos principais. Daí a minha pergunta, que tem razões médicas... não de família. O que me diz da Srta. Angelique Richaud?
Struan queria parecer calmo e firme, mas não foi capaz de controlar a frustração, e explodiu:
— Quero casar com ela e está me levando à loucura ter de ficar deitado aqui, Como um... deitado aqui na total impotência. Pelo amor de Deus, não posso nem ao menos sair da cama, não posso mijar... não posso fazer absolutamente nada, mal consigo beber ou comer ou fazer qualquer outra coisa, sem sentir uma dor terrível. Estou enlouquecendo, e por mais que tente, parece que nada melhora.
Ele continuou a se lamentar, até se sentir fraco. Hoag limitou-se a escutar. Struan finalmente parou, murmurando outro pedido de desculpas.
— Posso examiná-lo agora?
— Pode... claro.
Com extremo cuidado, Hoag examinou-o, encostou o ouvido no peito para escutar o coração, verificou a boca, a pulsação, espiou o ferimento, cheirou-o. Os dedos sondaram a barriga, procurando pelos órgãos por baixo, avaliando a extensão dos danos.
— Aqui dói... e aqui... fica melhor assim?
Cada pressão provocava um gemido de Malcolm. Hoag encerrou o exame depois de um longo momento. Struan rompeu o silêncio:
— E então?
— Babcott fez um bom trabalho com o que já teria matado, a esta altura, um homem normal. — As palavras de Hoag eram medidas, transbordando de confiança. — Agora, vamos fazer uma experiência.
Gentilmente, ele pegou as pernas de Struan, e ajudou-o a sentar na beira da cama. Depois, passou o braço de Malcolm por seus ombros e sustentando a maior parte do peso, com uma força surpreendente, ajudou-o a levantar.
— Cuidado!
Struan não podia se manter de pé sozinho, mas teve a impressão de que era capaz, e isso o encorajou. Depois de um momento, Hoag tornou a arriá-lo na cama. O coração de Struan batia descompassado da dor, mas ele se sentia bastante satisfeito.
— Obrigado.
O médico recostou-se na cadeira, enquanto recuperava a própria força.
— Vou deixá-lo agora, para arrumar minhas coisas. Gostaria que você descansasse. Voltarei a vê-lo depois de conversar com Babcott. É bem provável que venhamos visitá-lo juntos. Combinado?
— Claro. E... obrigado, Ronald.
À guisa de resposta, Hoag apertou o braço de Struan, antes de pegar seus pertences e se retirar.
Sozinho de novo, Struan deixou que as lágrimas felizes escorressem por seu rosto e as lágrimas o embalaram ao sono. Sentia-se descansado quando acordou, pela primeira vez revigorado, e permaneceu imóvel, regozijando-se pelo fato de ter-se levantado... com ajuda, é verdade, mas ficara de pé, era um começo, e agora contava com um aliado de verdade.
Do lugar em que se encontrava, um pouco virado para a esquerda, podia olhar pela janela, na direção do mar. Amava o mar e também o odiava, nunca se sentiu à vontade nele, temendo-o porque era incontrolável e imprevisível, como no dia ensolarado em que os gêmeos e o contramestre se distanciaram da praia num bote por uma centena de metros, uma onda súbita virara a embarcação, e uma correnteza os arrastara, todos bons nadadores, os gêmeos nadavam como os peixes, mas mesmo assim se afogaram, só o marujo se salvou. O choque deixara-o arrasado e quase matara seu pai. A mãe entrara num de seus comas ambulantes, dizendo a todo instante:
— É a vontade de Deus. Devemos continuar.