“É muito difícil ter alguma privacidade no prédio da Struan, por mais confortável e agradável que seja. Além disso, a colônia é uma coisa pavorosa. Não há nenhuma cabeleireira, nenhuma costureira para mulheres (embora conte com os serviços de um alfaiate chinês que é muito hábil em copiar o que já existe), nenhuma chapeleira — ainda nem experimentei o sapateiro, pois não há nenhum lugar para ir, nada para se fazer —, ah, quanta saudade tenho de Paris. Mas como poderei voltar a viver lá agora? Malcolm aceitaria a mudança para Paris, se casarmos? Nunca. E se não casarmos... como poderei sequer pagar a passagem de volta para casa? Como? Já me fiz essa pergunta mil vezes, e não consegui encontrar uma resposta.”

O olhar de Angelique deixou o papel, desviou-se para a janela e os navios na enseada. Gostaria de estar em um deles, voltando para casa, gostaria de nunca ter vindo para cá. Odeio este lugar... E se... Se Malcolm não casar comigo, terei de casar com algum outro, mas não tenho dote, absolutamente nada. Oh, Deus, não era isso que eu esperava! Se conseguisse voltar para casa, ainda assim continuaria sem dinheiro, os pobres tio e tia arruinados. Colette não tem nenhum para emprestar, não conheço nenhuma pessoa bastante rica ou famosa para casar, ou para subir na sociedade, e me tornar uma concubina, numa posição de segurança. Poderia ir para o teatro, mas é essencial contar com um patrono para subornar gerentes e autores, pagar todas as roupas, jóias, carruagens, uma mansão para os saraus... é claro que se tem de ir para a cama com o patrono, ao capricho dele, não o seu, até se tornar bastante rica e famosa, o que leva tempo, e não disponho das ligações, nem de amigos que as tenham. Oh, Deus, estou tão confusa! Acho que vou chorar de novo...

Ela baixou o rosto para os braços, as lágrimas se derramando, tomando cuidado para não fazer muito barulho, pois a criada poderia ouvir, e começar a gemer, criando uma cena, como acontecera no primeiro dia. Sua camisola era de seda creme, um chambre verde claro cobria os ombros, os cabelos desgrenhados, o quarto masculino, a cama de baldaquino, esta suíte muito maior que a de Malcolm. Num lado, ficava a ante-sala, pela qual se tinha acesso ao quarto dele. Havia também uma sala de jantar, que podia acomodar vinte pessoas, com sua própria cozinha. Mas essas portas estavam trancadas. A penteadeira era a única frivolidade, ela mandara fazer uma cortina de cetim rosa.

Quando as lágrimas cessaram, Angelique enxugou os olhos, estudou em silêncio seu reflexo no espelho de prata. Não havia rugas, apenas insinuação de fieiras, o rosto um pouco mais fino do que antes. Nenhuma mudança exterior. Deixou escapar um suspiro profundo e voltou a escrever:

“Apenas chorar não ajuda em nada. Hoje DEVO conversar com Malcolm. De qualquer maneira. André me avisou que o navio de correspondência já está atrasado um dia, e a notícia da minha catástrofe chegará com ele, é inevitável... por que os ingleses chamam um navio de ela”? Sinto-me apavorada com a possibilidade de a mãe de Malcolm estar a bordo... as notícias sobre o ferimento do filho devem ter chegado a Hong Kong no dia 24, o que lhe daria tempo suficiente para embarcar no navio de correspondência. Jamie duvida que ela possa viajar num prazo tão curto, não com seus outros filhos lá, o marido morto há apenas três semanas, e ainda de luto fechado, pobre mulher.

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