Quando Jamie subira a bordo do navio de correspondência, encontrara o Dr. Hoag à sua espera. O médico lhe dissera que já separara toda a correspondência da Struan; podiam desembarcar logo. Depois, para alívio de Jamie, respondera à sua pergunta premente:
— Não, Jamie, a Sra. Struan não veio, mas eu trouxe uma carta dela para você. Dizia apenas: Jamie, faça tudo o que o Dr. Hoag pedir, e me envie relatórios confidenciais detalhados por todos os navios de correspondência.
— Sabe o que diz a carta, doutor?
— Sei, sim, e acho que nem haveria necessidade, mas você conhece a dama.
— Como ela está?
Hoag pensara por um momento.
— Como sempre: imperturbável por fora, um vulcão por dentro. Um dia tem de explodir... ninguém pode manter tanta tristeza reprimida, tantas tragédias. Absolutamente ninguém. Nem mesmo ela.
Ele acompanhara Jamie pela rampa de desembarque, os olhos se virando para todos os lados.
— Devo dizer que me sinto satisfeito pela oportunidade de visitar o Japão... Você está muito bem, Jamie. Não resta a menor dúvida de que este posto combina com você. Já se passou quase um ano desde a sua última licença, não é? E agora conte, conte tudo, primeiro sobre o ataque mortal... e depois sobre a Srta. Richaud.
Ao alcançarem a praia, o Dr. Hoag já estava a par de tudo o que Jamie sabia.
— Mas, por favor — acrescentara ele, apreensivo —, não mencione a Malcolm o que lhe contei sobre Angelique. Ela é uma pessoa maravilhosa e também passou por momentos terríveis. Não creio que já tenham deitado juntos, o noivado secreto é apenas um rumor, mas ele está mesmo apaixonado... não que eu o culpe por isso, ou a qualquer outro homem na Ásia, diga-se de passagem. Detesto a idéia de mandar relatórios secretos para a Sra. Struan, por motivos óbvios. De qualquer forma, já tenho um escrito, uma versão atenuada, e será despachado quando o navio voltar. Minha lealdade deve ser para Malcolm em primeiro lugar, acima de tudo, pois ele é o
Agora, observando Malcolm Struan deitado ali, lendo a carta que Hoag lhe entregara, vendo o rosto pálido e o corpo debilitado, ele começou a ter dúvidas.
Struan levantou o rosto, os olhos contraídos.
— O que é, Jamie?
— Queria que eu fizesse alguma coisa.
Depois de uma pausa, Malcolm disse:
— Isso mesmo. Mande um recado para a legação francesa... Angelique está lá, disse que ia esperar por sua correspondência... avise que um velho amigo chegou de Hong Kong e que eu gostaria que ela o conhecesse.
McFay balançou a cabeça e sorriu.
— Está bem. Basta me chamar quando precisar de qualquer coisa.
Ele se retirou. Inquieto, Struan ficou olhando para a porta. O rosto de Jamie fora franco demais. Tentando recuperar o controle, ele voltou a se concentrar na carta:
Ele levantou os olhos.
— E agora?
— Diga-me a verdade, Malcolm. Como você está?
— Eu me sinto horrível e tenho medo de morrer.
Hoag sentou na cadeira de braços e uniu as pontas dos dedos, as mãos erguidas.
— A primeira coisa é compreensível, a segunda não é necessariamente acurada, embora seja muito fácil acreditar nisso... e também muito perigoso. Os chineses podem provocar a própria morte, ao pensarem que vão morrer, mesmo quando estão saudáveis... já vi acontecer.
— Mas eu não quero morrer. Tenho tudo por que viver. E não há palavras para expressar o quanto quero viver. Mas todas as noites, todos os dias, em algum momento, o pensamento me ocorre... me atinge como se fosse um golpe físico.
— Que medicamento está tomando?
— Só uma coisa... acho que é láudano... para me ajudar a dormir. A dor é terrível e não consigo me acomodar.
— Todas as noites?
— Isso mesmo. Ele quer que eu pare de tomar, diz que tenho... que devo parar.
— Já tentou?
— Já.
— E não conseguiu?
— Ainda não. Minha vontade parece ter me abandonado.