— Por dinheiro, o que mais? Nori é um avarento, Utani generoso... Os camponeses de Anjo não são os mais tributados em todo o Japão? As dívidas dele não sobem até o céu? Ele não é conhecido por consumir moedas de ouro como se fossem grãos de arroz? Muito em breve, de um jeito ou de outro, Anjo deixará este mundo. Talvez esse rapaz bonito pense que Utani sobreviverá a ele e que o risco vale a pena. Afinal, Utani tem influência na corte, não é? Koku! Por que não? Sua família deve ser miserável, afogada em dívidas... não é o que acontece com quase todos os samurais, abaixo da posição de hirazamurai, que vivem no nível de pobreza?

— Tem razão — concordaram todos.

— Isso é verdade desde o quarto xógum, há quase duzentos anos — comentara o jovem de dezoito anos, amargurado. — Os daimios ficam com todos o tributos, vendem cartas de samurais a mercadores sórdidos, mais e mais a cada ano, e ainda cortam nosso pagamento. Os daimios traíram a nós, seus leais seguidores!

— Você está certo — disse Akimoto, enfurecido.— Meu pai teve de oferecer seus serviços como um trabalhador nos campos, para alimentar meus demais irmãos e irmãs...

— Ao nosso só restaram suas espadas, não tem casa, vive numa cabana — declarara Joun. — Estamos tão endividados desde o tempo do bisavô que nunca teremos condições de pagar os empréstimos. Mas nunca mesmo!

— Sei como dar um jeito nesses vis adoradores do dinheiro, cancelar as dívidas ou matá-los — interviera outro. — Se os daimios às vezes saldam suas dívidas assim, por que não podemos fazer a mesma coisa?

— Uma ótima idéia — concordara Akimoto. — Só que lhe custaria a cabeça. Lorde Ogama o converteria num exemplo, caso seus próprios emprestadores parassem de lhe adiantar dinheiro contra... em que ponto estamos agora?... ah, sim, os tributos que deve receber daqui a quatro anos.

Outro acrescentara:

— O estipêndio de minha família não mudou desde Sekigahara, o custo do arroz subiu cem vezes desde então. Devemos nos tornar mercadores ou fabricantes de saquê. Dois tios e o irmão mais velho renunciaram às suas espadas e fizeram isso.

— É terrível, mas também tenho pensado nessa possibilidade.

— Os daimios traíram a todos nós.

— A maioria, mas nem todos — ressaltara Hiraga.

— É verdade — reconhecera Akimoto. — Mas não importa. Escolheremos nosso daimio após expulsarmos os bárbaros e acabarmos com o xogunato Toranaga. O novo xógum nos dará o suficiente para comer, a nós e nossas famílias, além de armas melhores, até mesmo alguns fuzis dos gai-jin.

— Ele os reservará para seus próprios homens, quem quer que seja.

— Por que faria isso, Hiraga? Haverá o suficiente para todos. Os Toranagas não entesouram de cinco a dez milhões de kokus todos os anos? É mais do que suficiente para armar muito bem a todos nós. Se tivermos de nos separar na escuridão, onde deveremos nos reagrupar?

— Na casa dos Salgueiros Verdes, ao sul da quarta ponte, não aqui. Se isso também for difícil, devemos nos esconder em algum lugar e voltar para Kanagawa...

Agora, na varanda, atentos a qualquer sinal de perigo, desfrutando a sensação, Hiraga sorriu, o coração batendo depressa, sentindo a alegria da vida e da morte emininente, mais próxima a cada dia. Dentro de poucos momentos, tornaremos a atacar. A ação novamente...

Passara vários dias no templo ao lado da legação inglesa, esperando impaciente por uma oportunidade de desfechar um ataque, mas sempre havia guerreiros geniais, estrangeiros e samurais. Todos os dias bancara o jardineiro, espionando, escutando, planejando... seria muito fácil matar o bárbaro alto que se encontrava ali, o mesmo que escapara do atentado na Tokaidô. Era espantoso que apenas um bárbaro tivesse morrido, do alvo fácil de três homens e uma mulher.

Ah, a Tokaidô! A Tokaidô significa Ori, Ori significa Shorin e os dois significam Sumomo, que vai completar dezessete anos no próximo mês, e que não vou considerar a carta de meu pai. Não vou de jeito nenhum! Não aceitarei o perdão de lorde Ogama, se para isso tiver de renunciar a Sonno-joi. Segurei sua orientação para qualquer morte a que me conduza.

Só eu continuo vivo agora. Ori está morto ou morrerá amanhã. Shorin se foi E Sumomo?

Na noite anterior, as lágrimas haviam molhado seu rosto, lágrimas do sonho em que a encontrara, com seu bushido e seu fervor, seu corpo e seu perfume chamando-o, mas perdida para ele por toda a eternidade. Fora impossível dormir e ele permanecera sentado na posição de lótus, a posição de Buda, usando o zen para transportar sua mente à paz.

E depois, naquela manhã, a dádiva dos deuses, a mensagem furtiva e cifrada da mama-san de Koiko sobre Utani, que recebera a informação, também secreta, da criada de Koiko. Hiraga pensara, na maior exultação: O que Yoshi faria se soubesse que nossos tentáculos se estendem até seu leito, até mesmo em torno de seus testículos?

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