Confiante agora de que ainda não haviam sido descobertos, ele se levantou de um pulo, foi até a porta, usou a faca para soltar a tranca. Entraram num instante. Akimoto manteve-se de guarda, no uniforme da sentinela. Os outros seguiram Hiraga sem fazer qualquer barulho, subiram a escada, a caminho dos aposentos das mulheres, um roteiro que lhe fora fornecido com antecedência. Tudo era suntuoso, as melhores madeiras, os tatames mais refinados, o mais puro papel oleado de
Ele passou por cima do corpo, foi até o final desse corredor, hesitou por um instante, procurando se orientar. Agora, um beco sem saída. Nos lados havia paredes corrediças de
Ele acenou com a cabeça para Joun. No mesmo instante, o jovem passou por ele, foi se agachar no outro lado da porta de
Havia dois homens estendidos de bruços nos futons e colchas de seda, nus e unidos, o rapaz com as pernas abertas, o mais velho por cima, agarrando-o e arremetendo, ofegante, alheio a tudo. Hiraga adiantou-se, ergueu a espada bem alto e, segurando o cabo com as duas mãos, enfiou a ponta pelas costas dos dois corpos, um pouco acima do coração, empalando-os no chão de tatame.
O velho arquejou e morreu no mesmo instante, braços e pernas tremendo além da morte. O rapaz se debateu, na impotência, incapaz de mover o tronco, podendo apenas agitar os braços, pernas e cabeça. Mesmo assim, não conseguiu virar a cabeça o suficiente para ver o que acontecera, e também não pôde compreender o que ocorria, sabia apenas que, de alguma forma, sua vida se esvaía pelo corpo aberto. Um uivo de terror subiu por sua garganta, enquanto Todo saltava para a frente e usava o garrote para abafá-lo... um instante tarde demais. Parte do grito ressoou pelo ar agora fétido.
Ele e Hiraga se viraram para aporta, todos os sentidos em alerta Hiraga ergueu sua faca. Todo, Joun e os outros no corredor levantaram suas espadas, os corações disparados, prontos para atacar, fugir, lutar, correr, morrer com orgulho. Por trás de Hiraga, as mãos delicadas do rapaz rasgaram o próprio pescoço, as unhas compridas, perfeitas e pintadas dilacerando a carne em torno do fio do garrote. Os dedos estremeceram, pararam, tremeram, pararam de novo, tornaram a se agitar. E depois ficaram imóveis.
Silêncio. Em algum lugar, uma pessoa dormindo se remexeu, ruidosamente, tomou a ficar quieta. Ainda não havia nenhum alarme nem gritos de advertência. Pouco a pouco os atacantes saíram de sua imobilidade, atordoados, suados. Hiraga sinalizou a retirada.
Todos obedeceram no mesmo instante, à exceção de Joun, que correu pelo quarto, para recuperar a espada de Hiraga. Postou-se por cima dos corpos, mas nem mesmo usando toda a sua força conseguiu remover a espada. Hiraga acenou para que ele se afastasse, também tentou tirar a espada e fracassou. As armas dos mortos se encontravam numa estante de espadas laqueada. Ele pegou uma. Na porta, olhou para trás.
Na luz firme do lampião a óleo, os dois corpos pareciam uma única e monstruosa libélula, de vários membros, cabeça humana, as colchas amarrotadas como suas asas gloriosas, a espada como um gigantesco alfinete de prata. Podia agora ver o rosto do rapaz... e era mesmo muito bonito.
Yoshi passeava pelas ameias, com Koiko a seu lado, uma cabeça mais baixa. Havia um prenúncio de frio na brisa, que trazia o cheiro do mar na maré baixa. Ele nem percebia. Mais uma vez, seus olhos esquadrinharam a cidade lá embaixo, contemplaram a lua, pensativos. Koiko esperava, paciente. Seu quimono era do melhor xantungue, com outro escarlate por baixo, os cabelos soltos, informalmente, caindo até a cintura. O quimono de Yoshi era comum, de seda, mas comum, as espadas também nada tinham de extraordinárias, embora fossem bastante afiadas.
— Em que está pensando, Sire? — perguntou ela, calculando que era tempo de dissipar a melancolia de Yoshi.
Apesar de estarem a sós, Koiko manteve a voz baixa, sabendo que nenhum luugar dentro das muralhas do castelo era realmente seguro.
— Quioto — respondeu ele, também em voz baixa.
— Vai acompanhar o xógum Nobusada?
Yoshi sacudiu a cabeça, embora já tivesse decidido que iria a Quioto, antes da comitiva formal — o embuste habitual.