— Sinto-me honrada. Obrigada, Sumomo. — Sorrindo, a mama-san devolveu o estilete. — Agora sou um pouquinho samurai, não é?

O estilete foi guardado de volta na bainha da manga.

— Quando o imperador recuperar todo o seu poder, ELE promoverá a samurais todos aqueles que merecem. Pediremos por você, Hiraga-san, Ori e eu.

Noriko fez outra reverência em agradecimento, adorando a idéia, mas convencida de que se situava além de qualquer possibilidade e de que nunca viveria para ver o inconcebível acontecer: o xogunato Toranaga cessar de existir.

— Em nome de toda a minha linhagem, obrigada. Agora... Saquê!

— Não, obrigada. Lamento muito, mas Sensei Katsumata fez com que as mulheres em sua turma renunciassem ao saquê, dizendo-nos que embotaria para sempre nossa habilidade e prejudicaria nossa mira. Por favor, onde está Hiraga-san?

Noriko observou-a, escondendo seu sorriso.

— Katsumata, o grande senseil Estudou com ele? Shorin nos contou que você sabia usar a espada, a faca e o shuriken. É verdade?

Com surpreendente rapidez, Sumomo enfiou a mão na obi, tirou um shuriken e arremessou o pequeno círculo de aço, com cinco lâminas, muito afiadas, através da sala, cravando-o no centro exato de um poste. Mal se mexera.

— Por favor, onde está Hiraga-san? — indagou ela, gentilmente.

17

IEDO

Naquela noite, hiraga comandou o ataque silencioso, passando por cima da estacada do palácio de um daimio, no segundo círculo, fora das muralhas do castelo. Correram pelo jardim para a entrada dos fundos da mansão, a noite iluminada por uma lua fria. Todos os seis homens usavam o mesmo quimono curto, preto, o traje de combate noturno, sem armadura, para não prejudicar a velocidade e o silêncio. Todos levavam espadas, facas e garrotes. Todos eram ronin de Choshu, convocados por Hiraga com urgência de Kanagawa, para o ataque daquela noite.

Em torno da mansão, havia alojamentos, estábulos e aposentos para os criados, onde normalmente deveriam estar instalados quinhentos guerreiros, a família e os criados do daimio. Só que agora se encontravam vazios. Apenas duas sentinelas sonolentas se postavam na porta dos fundos. Viram os atacantes tarde demais para darem o alarme e morreram. Akimoto tirou o uniforme de uma sentinela, vestiu-o, arrastou os corpos para as moitas e foi se juntar aos outros na varanda. Esperaram, imóveis, escutando com toda atenção. Não ouviram gritos de alerta, o que os levaria a desistir do ataque no mesmo instante.

— Não tem importância se tivermos de bater em retirada — explicara Hiraga, ao crepúsculo, quando os outros chegaram a Iedo.— Já é suficiente conseguirmos nos infiltrar tão perto do castelo. O objetivo desta noite é o terror, matar e semear o terror, para fazê-los acreditar que ninguém e nenhum lugar se encontram além do nosso alcance e de nossos espiões. O terror, entrar e sair depressa, com o máximo de surpresa e sem baixas. Esta noite é uma oportunidade excepcional. Ele sorrira, antes de acrescentar: — Quando Anjo e os anciãos cancelaram o sankin-kotai, escavaram a sepultura do xogunato.

— Vamos incendiar o palácio, primo? — perguntara Akimoto, feliz.

— Depois de matar.

— E quem é ele?

— É velho, cabelos grisalhos, baixo e magro, Utani, o ancião roju. Todos se mostraram espantados.

— O daimio de Watasa?

— O próprio. Infelizmente, nunca o vi. Alguém sabe como ele é?

— Acho que posso reconhecê-lo — dissera o jovem de dezoito anos, com uma cicatriz horrível estendendo-se pelo lado do rosto. — É esquelético, como uma galinha doente. Vi-o uma ocasião em Quioto. Quer dizer que esta noite vamos despachar um ancião para o outro mundo, nem... um daimio? Mas isso é sensacional!

Ele sorrira, coçara a cicatriz, um legado da malsucedida tentativa Choshu de capturar os portões do palácio, em Quioto, na primavera passada, antes de acrescentar:

— Utani não correrá mais para lugar nenhum depois desta noite. É louco por dormir fora das muralhas e deixar que se saiba disso! E sem guardas? Que estúpido!

Joun, de dezessete anos, sempre o cauteloso, comentara:

— Desculpe, Hiraga-san, mas tem certeza de que não é uma armadilha, preparada com uma falsa informação? Yoshi é conhecido como raposa, Anjo é ainda pior. Há altas recompensas por nossas cabeças, não é? Concordo com meu irmão: como Utani pode ser tão estúpido?

— Porque ele tem um encontro secreto. É um pederasta. Todos o fitaram, aturdidos.

— Por que ele haveria de manter isso em segredo?

— O rapaz é um dos íntimos de Anjo.

So ka! — Os olhos de Joun faiscaram. — Neste caso, acho que eu também manteria em segredo. Mas porque um rapaz bonito haveria de se entregar a alguém como Utani, quando já conta com um protetor poderoso?

Hiraga dera de ombros.

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