— Sinto muito, mas alguém falou — disse a
— Esta manhã soubemos que os vigilantes...
— Quem?
— Os vigilantes? São patrulhas especiais de interrogatório do
— Vai mantê-lo aqui até que ele fique bom.
— Mas não posso! Não depois do que aconteceu na estalagem dos Quarenta e Sete
— Isso foi em Iedo e estamos em Kanagawa. Esta é a estalagem das Flores da Meia-Noite. Lamento, mas Hiraga-san exigiria.
— Ninguém exige nada aqui, senhora — proclamou Noriko, a voz estridente.
— Nem mesmo Hiraga-san. Tenho que pensar em meu próprio filho e na minha casa.
— Faz muito bem. E eu tenho de pensar no amigo de meu irmão e aliado de Hiraga. Também devo lembrar do rosto de meu irmão. Estou autorizada a acertar suas dívidas.
Noriko se mostrou surpresa.
— Todas as dívidas de Shorin?
— Metade agora, a outra metade quando
— Negócio fechado — disse Noriko, tão atordoada com a sorte inesperada, por um dinheiro que nunca imaginara que viria a receber, que cedeu na barganha.
— Mas nada de médicos
— Combinado.
No mesmo instante, a moça enfiou a mão na manga, a fim de pegar a bolsa, escondida num compartimento secreto. Noriko prendeu a respiração ao ver tantas moedas de ouro.
— Aqui estão dez oban. Vai me dar um recibo, junto com sua conta detalhada, a metade da dívida, como combinamos, no momento em que formos embora. Onde Ori-san pode ficar em segurança?
Noriko se censurou por ter sido tão precipitada, mas já que concordara, agora era uma questão de honra. Enquanto considerava o que fazer, estudou a jovem a sua frente, Sumomo Anato, irmã mais nova de Shorin Anato, o
— Quantos anos tem, senhora?
Sumomo surpreendeu-se com a pergunta.
— Dezesseis.
— Sabe como Shorin morreu?
— Sei. Serei vingada.
— Hiraga lhe contou?
— Você faz perguntas demais — protestou Sumomo, a voz ríspida.
Noriko achou engraçado.
— No jogo em que nos empenhamos, você e eu, embora seja uma samurai e eu uma
— Acha mesmo?
— Acho, sim. Por isso, neste jogo tão sério de dar cobertura a nossos homens, protegê-los de sua bravura... ou estupidez, dependendo do lado em que a gente se encontra, arriscando nossas vidas para resguardá-los de seus próprios méritos, devemos ter confiança uma na outra. Confiança de irmãs de sangue. Assim, torno a perguntar: Hiraga lhe falou de Shorin?
Sumomo sabia que sua posição era delicada.
— Falou.
— Hiraga é seu amante?
Os olhos de Sumomo se contraíram.
— Hiraga é... era meu noivo, antes de... antes de partir para servir
A
— Um samurai de
— Meu pai não aprovou. Nem minha mãe. Mas Shorin aceitou. E eu não aprovei a escolha que eles fizeram para mim.
— Ah, sinto muito. — Noriko ficou triste, sabendo muito bem o que significava a pressão incessante, o confinamento em sua própria casa ou até pior. — Foi proscrita de sua família?
Sumomo permaneceu imóvel, a voz se manteve calma:
— Há poucos meses, decidi seguir meu irmão e Hiraga-san, a fim de poupar meu pai dessa vergonha. Sou agora uma
— Enlouqueceu? Mulheres não podem se tornar
— Noriko — disse Sumomo, resolvendo assumir um risco —, concordo que devemos ser irmãs de sangue.
Um estilete apareceu em sua mão. Noriko piscou outra vez, aturdida, pois não vira de onde saíra o estilete. Observou Sumomo espetar seu dedo e lhe oferecer a lâmina. Sem hesitação, fez a mesma coisa. Encostaram os dedos, misturando o Sangue, e depois fizeram uma reverência solene.