— Claro que não, mas passei dez dias retido aqui, sem nada para fazer, e me empenhei em aprender algumas palavras e frases. E, para ser franco, embora Sir William possa me aplicar a lei da insubordinação por ser tão intrometido, estou gostando imensamente. Sinto o maior prazer em ser capaz de me comunicar.

O rosto de Fujiko aflorou em sua mente, todos os contatos com ela, as horas que passara em sua companhia... a última vez há dez dias, quando voltara a Iocoama por um dia e uma noite. Um hurra para Sir William, porque ainda esta noite ou amanhã, tornarei a vê-la, e isso é maravilhoso.

— Maravilhoso! — exclamou ele, sem pensar, radiante. Uma pausa, e se apressou em acrescentar: — Ah... gostaria de tentar aprender a falar, ler e escrever a língua. O velho Shikisha me ensinou várias palavras, a maioria de seu trabalho. Já Ukiya...

Ele apontou para Hiraga, que trabalhava com a maior diligência, sempre por perto, sem saber que “Ukiya” era um pseudônimo e significava apenas “jardineiro”.

— ...ele está me ajudando com a escrita. Até que é bastante inteligente para um japonês.

Durante uma aula de escrita no dia anterior, ele conferira os rumores que ouvira, pedindo-lhe, com os sinais e palavras que Poncin lhe ensinara, que Ukiya escrevesse os caracteres para “guerra”, senso, e “logo”, jiki-ni. Depois, combinara suas toscas tentativas de escrita com “guerra, no Nipão, logo. Por favor?”

Percebera uma súbita mudança e surpresa.

— Gai-jin toh nihon-go ka? Estrangeiros e japoneses?

— Iyé, Ukiya. Nihonjin to nihonjin. Não, Ukiya, japoneses e japoneses.

O homem soltara uma risada repentina. Tyrer constatara como ele era bem-apessoado, diferente dos outros jardineiros, e especulara por que parecia muito mais inteligente do que os companheiros, embora a maioria dos trabalhadores japoneses, ao contrário dos equivalentes britânicos, soubesse ler e escrever.

Nihonjin tsuneni senso nihonjin! Japoneses estão sempre lutando com japoneses.

Ukiya arrematara a resposta com outra risada, e Tyrer rira também, simpatizando cada vez mais com o homem. Agora, ele sorriu para Pallidar.

— Mas quais são as outras novidades? Nada de negócios, por favor. Como está Angelique?

Pallidar soltou um grunhido.

— Interessado nela, hem? — indagou ele, em tom incisivo, saboreando interiormente a ironia.

— Nem tanto. — respondeu Tyrer, no mesmo tom, também zombeteiro, o que fez os dois rirem.

— Amanhã é a festa de noivado.

— Malcolm é que é um homem de sorte! Graças aDeus fui liberado de minha missão aqui. Detestaria perder essa festa. Como ela está?

— Linda, como sempre. Nós a recebemos como convidada de honra no rancho. Ela chegou como uma deusa, escoltada pelo ministro francês, um idiota pomposo e o tal de André Poncin... não gosto de nenhum dos dois. Foi...

— André até que é simpático... está me ajudando muito com o meu japonês.

— Pode ser, mas não confio nele. Há um longo artigo no Times sobre o iminente conflito europeu: França e provavelmente a Rússia contra a Alemanha. Seremos arrastados à guerra outra vez.

— Eis aí uma guerra que podemos dispensar. Mas o que aconteceu?

Um enorme sorriso.

— Foi uma noite espetacular. Dancei uma vez com ela. Maravilhoso! Uma polca... dancei com o coração na boca. Bem perto dela... mas sem ser desrespeitoso. Posso dizer que seus seios são como leite e mel, e seu perfume...

Por um instante, Pallidar reviveu aquele momento inebriante, o centro das atenções na pista de dança construída as pressas, Angelique a única mulher presente, a iluminação de velas e lampiões a óleo, a banda da guarda tocando com a maior animação, a dança se prolongando, o casal perfeito, todos consumidos pelo ciúme.

— Não me importo de admitir que sinto inveja de Struan.

— Como ele está?

— Ahn... Struan? Um pouco melhor, pelo que dizem. Não o tenho visto ultimamente, mas fui informado que já se levanta. Perguntei a Angelique, mas ela se limitou a dizer que ele está muito melhor.

Uma pausa, com outro sorriso radiante.

— O novo médico, Dr. Hoag, médico da família, assumiu os cuidados. Soube que ele é excelente.

Pallidar terminou sua cerveja. Outra foi estendida pelo sempre atento Chen, Risonho e rotundo, um padrão de Lim, e também um primo distante do compradore da Struan.

— Obrigado. — Pallidar tomou um gole, satisfeito. — Uma excelente cerveja.

— É local. Ukiya diz que os japoneses a produzem há anos, a melhor de Nagasáqui. Imagino que a copiaram de alguma cerveja portuguesa, há muitos anos.

Pallidar olhou para Tyrer, pensativo.

— O que acha da história do assassino de Hoag? Da operação, a moça misteriosa?

— Não sei o que pensar. Pensei ter reconhecido um deles, lembra? O sugeito foi ferido no mesmo lugar. Tudo combina. É uma pena que você e Marlowe não conseguiram pegá-lo. Irônico se um dos nossos o curou, para que ele possa assassinar mais alguns de nós.

Tyrer baixou a voz, pois sempre havia criados por perto, sem falar nos soldados.

— Aqui entre nós, meu caro, Sir William está mandando vir mais soldados nos navios de Hong Kong.

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