É isso mesmo, pensou Hiraga, com um sombrio divertimento, é exatamente por isso que nunca terão os nossos estreitos. Com os canhões de que já dispomos agora, podemos fechá-los e mantê-los fechados, contra qualquer esquadra estrangeira... e muito em breve nossa fábrica de armamentos, construída e projetada pelos holandeses, estará moldando canhões de sessenta libras, numa média de três por mês, junto com todos os acessórios!
A maré virou a nosso favor, depois de tanto tempo. Lorde Ogama, de
Abruptamente, todas as atenções das pessoas no pátio desviaram-se para portões vigiados, onde irromperam gritos. Hiraga sentiu o estômago revirar. Um oficial samurai, à frente de uma patrulha, com os estandartes do
Um corneteiro soou o alarme. Todos os soldados dentro dos muros correram para os seus postos de combate, alguns com o uniforme meio desabotoado, sem chapéu, mas todos com rifles, cartucheiras e baionetas. Os jardineiros caíram de joelhos, baixando acabeça para a terra. Hiraga, apanhado de surpresa, permaneceu de pé por mais um momento, depois apressou-se em seguir o exemplo, sentindo-se totalmente desprotegido. Os guerreiros começaram a se concentrar na praça, numa quantidade assustadora. Trêmulo, Tyrer levantou-se.
— O que está acontecendo?
Com uma lentidão deliberada, Pallidar disse:
— Acho que é melhor descobrirmos. — Ele levantou-se sem pressa, avistou o capitão no comando da guarda da legação saindo pela porta, abrindo seu coldre. — Bom dia. Sou o capitão Pallidar.
— Capitão McGregor. Fico contente que esteja aqui. Muito contente.
— Vamos verificar qual é o problema?
— Claro.
— Quantos homens têm aqui?
— Cinqüenta.
— Ótimo. É mais do que suficiente. Phillip, não precisa se preocupar. — Ele parecia calmo por fora, mas a adrenalina já circulava no sangue. — É a maior autoridade aqui. Talvez deva perguntar ao samurai o que ele quer. Vamos escoltá-lo.
— Claro.
Fazendo um esforço para aparentar tranquilidade, Tyrer pôs a cartola na cabeça, ajeitou a sobrecasaca e desceu os degraus. Todos o observavam. Os dragões olhavam apenas para Pallidar, aguardando suas ordens. Tyrer parou a cinco metros do portão, os dois oficiais logo atrás. Por um instante, só foi capaz de pensar numa coisa, que tinha vontade de urinar. Depois, em meio ao silêncio, ele disse, hesitante:
—
O oficial, Uraga, o homem enorme, que parecia um urso, o mesmo que estivera na emboscada dos
— Bom dia. O que deseja, por favor?
O oficial notara a reverência menos do que respeitosa e explodiu numa corrente de japonês, o que deixou Tyrer atordoado, sem compreender nada. Hiraga também ficou atordoado, porque o oficial dos samurai
Tyrer procurou as palavras corretas com o maior cuidado:
—
—
O oficial falou com profunda exasperação e depois alteou a voz, acreditando, como a maioria das pessoas ao falar com um estrangeiro, que isso torna as palavras mais claras e compreensíveis. Repetiu o que dissera, na língua gutural que parecia cada vez mais ameaçadora, e concluiu:
— Não vai levar muito tempo, e quero que compreenda, por favor, que é para a sua própria proteção!
— Sinto muito, mas não compreendo. Fala inglês ou holandês, por favor?
— Não, claro que não. Deve ter sido claro para você. Só quero entrar por pouco tempo. Por favor, abra os portões. É para a sua proteção. Veja, os portões! Vou mostrar!