É isso mesmo, pensou Hiraga, com um sombrio divertimento, é exatamente por isso que nunca terão os nossos estreitos. Com os canhões de que já dispomos agora, podemos fechá-los e mantê-los fechados, contra qualquer esquadra estrangeira... e muito em breve nossa fábrica de armamentos, construída e projetada pelos holandeses, estará moldando canhões de sessenta libras, numa média de três por mês, junto com todos os acessórios!

A maré virou a nosso favor, depois de tanto tempo. Lorde Ogama, de Choshu, o único entre todos os daimios, obedece ao desejo do imperador, de atacar e expulsar os gai-jin; corretamente, ele e suas tropas controlam os portões do Palácio; Katsumata empenha-se em mobilizar todos os shishi para emboscar e destruir o xógum, que resolveu sair de seu covil, por mais incrível que isso possa parecer, e viajar para Quioto; e agora aumentamos a pressão sobre a cidadela dos gai-jin de Iocoama...

Abruptamente, todas as atenções das pessoas no pátio desviaram-se para portões vigiados, onde irromperam gritos. Hiraga sentiu o estômago revirar. Um oficial samurai, à frente de uma patrulha, com os estandartes do Bakufu e a insígnia pessoal de Toranaga Yoshi, exigia aos berros que o deixassem entrar, enquanto soldados de casaco vermelho respondiam, no mesmo tom, que ele deveria ir embora. Logo atrás do oficial, amarrado, todo machucado e encolhido, estava Joun... seu camarada shishi.

Um corneteiro soou o alarme. Todos os soldados dentro dos muros correram para os seus postos de combate, alguns com o uniforme meio desabotoado, sem chapéu, mas todos com rifles, cartucheiras e baionetas. Os jardineiros caíram de joelhos, baixando acabeça para a terra. Hiraga, apanhado de surpresa, permaneceu de pé por mais um momento, depois apressou-se em seguir o exemplo, sentindo-se totalmente desprotegido. Os guerreiros começaram a se concentrar na praça, numa quantidade assustadora. Trêmulo, Tyrer levantou-se.

— O que está acontecendo?

Com uma lentidão deliberada, Pallidar disse:

— Acho que é melhor descobrirmos. — Ele levantou-se sem pressa, avistou o capitão no comando da guarda da legação saindo pela porta, abrindo seu coldre. — Bom dia. Sou o capitão Pallidar.

— Capitão McGregor. Fico contente que esteja aqui. Muito contente.

— Vamos verificar qual é o problema?

— Claro.

— Quantos homens têm aqui?

— Cinqüenta.

— Ótimo. É mais do que suficiente. Phillip, não precisa se preocupar. — Ele parecia calmo por fora, mas a adrenalina já circulava no sangue. — É a maior autoridade aqui. Talvez deva perguntar ao samurai o que ele quer. Vamos escoltá-lo.

— Claro.

Fazendo um esforço para aparentar tranquilidade, Tyrer pôs a cartola na cabeça, ajeitou a sobrecasaca e desceu os degraus. Todos o observavam. Os dragões olhavam apenas para Pallidar, aguardando suas ordens. Tyrer parou a cinco metros do portão, os dois oficiais logo atrás. Por um instante, só foi capaz de pensar numa coisa, que tinha vontade de urinar. Depois, em meio ao silêncio, ele disse, hesitante:

Ohayo, watashi wa Taira-san. Nan desuka? Bom dia. Sou o Sr. Tyrer. o que deseja, por favor?

O oficial, Uraga, o homem enorme, que parecia um urso, o mesmo que estivera na emboscada dos shishi contra Anjo, nos arredores do castelo, lançou-lhe um olhar furioso, depois fez uma reverência e se manteve inclinado. Tyrer retribuiu com uma reverência, mas não tão baixa — como André Poncin lhe ensinara — e tornou a perguntar:

— Bom dia. O que deseja, por favor?

O oficial notara a reverência menos do que respeitosa e explodiu numa corrente de japonês, o que deixou Tyrer atordoado, sem compreender nada. Hiraga também ficou atordoado, porque o oficial dos samurais pedia permissão imediata para revistar a legação e o terreno em torno do prédio e interrogar todos os japoneses ali, porque era provável que houvesse assassinos e revolucionários shishi entre eles... “como este aqui”, concluiu Uraga, furioso, apontando para Joun.

Tyrer procurou as palavras corretas com o maior cuidado:

Wakamarisen. Dozo, hanashi wo suru noroku. Não compreendo. Por favor, fale devagar.

Tyakamarisen ka? Não compreende?

O oficial falou com profunda exasperação e depois alteou a voz, acreditando, como a maioria das pessoas ao falar com um estrangeiro, que isso torna as palavras mais claras e compreensíveis. Repetiu o que dissera, na língua gutural que parecia cada vez mais ameaçadora, e concluiu:

— Não vai levar muito tempo, e quero que compreenda, por favor, que é para a sua própria proteção!

— Sinto muito, mas não compreendo. Fala inglês ou holandês, por favor?

— Não, claro que não. Deve ter sido claro para você. Só quero entrar por pouco tempo. Por favor, abra os portões. É para a sua proteção. Veja, os portões! Vou mostrar!

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