Ele deu um passo à frente, pegou uma das barras e sacudiu os portões. Todos lá dentro se remexeram, nervosos, muitos puxaram a trava de segurança de seus rifles. Pallidar berrou uma ordem:

— Tornem a empurrar a trava de segurança! Ninguém vai atirar sem uma ordem minha!

— Não entendo o que ele está dizendo — murmurou Tyrer, sentindo um suor frio escorrer pelas costas. — Só que é óbvio que ele quer que os portões sejam abertos.

— O que não vamos fazer, de jeito nenhum, com essa turba armada lá fora! Diga a ele para ir embora, que isto é território britânico.

— Isto... — Tyrer pensou um pouco, depois apontou para o mastro e a bandeira inglesa. — Este lugar inglês... não podem entrar. Por favor, vá embora!

— Ir embora? Só pode estar louco. Acabei de explicar que é para a sua própria proteção. Capturamos este cão e tenho certeza de que há outro aqui, ou escondido nas proximidades. ABRA OS PORTÕES!

— Sinto muito, mas não compreendo...

Desolado, Tyrer olhou ao redor, enquanto mais palavras em japonês o envolviam. Foi então que seus olhos fixaram-se em Hiraga, não muito longe.

— Ukiya, venha até aqui! — chamou ele, em japonês. — Ukiya!

O coração de Hiraga quase parou.

Tyrer tornou a chamá-lo. Com um terror enormedo, rastejando, Hiraga se adiantou, encostou a cabeça na terra, aos pés de Tyrer, o traseiro virado para os portões, o chapéu de cule cobrindo quase todo o rosto.

— O que o homem disse? — perguntou Tyrer.

Com um falso tremor, todos os sentidos alerta, Hiraga respondeu em voz baixa:

— E um homem mau... quer entrar para... roubar suas armas.

— Ah, sim, entrar. Por quê?

— Ele... ele quer dar uma busca...

— Não compreendo. Uma busca como?

— Quer olhar dentro de sua casa, tudo.

— Compreendo entrar. Por quê?

— Já disse, uma busca...

— Ei, você, jardineiro! — gritou o oficial dos samurais.

Hiraga teve um sobressalto, uma onda de raiva percorreu seu corpo. Pela primeira vez na vida, ali, o centro das atenções, de joelhos na frente de um gai-jin sabendo que sob o chapéu usava um turbante tosco, que se fosse tirado revelaria a cabeça raspada e o penacho de samurai, ele sentiu um súbito e doentio medo.

— Ei, você, jardineiro! — gritou Uraga de novo, tornando a sacudir os portões. — Diga a esse tolo que só quero procurar por assassinos... assassinos shishi!

Desesperado, Hiraga murmurou:

— Taira-sama, os samurais querem entrar, olhar para todos. Diga a eles que estão indo embora, e depois poderão entrar.

— Não compreendo. Ukiya, vá até lá! — Tyrer apontou para os portões. — Diga a eles para irem embora!

— Não posso! Não posso! — sussurrou Hiraga, tentando pôr a mente para funcionar, superar a náusea.

— Phillip — interveio Pallidar, o suor manchando as costas do uniforme — o que ele está tentando lhe dizer?

— Não sei.

A tensão aumentou, enquanto o oficial dos samurais sacudia mais uma vez os portões, exigindo que lhe permitissem a entrada. Seus homens se adiantaram e seguraram as barras para ajudá-lo. Estimulado à ação, Pallidar chegou mais perto. Friamente, bateu continência. O homem fez uma reverência com a mesma frieza. Depois, em voz pausada, Pallidar declarou:

— Isto é território britânico. Eu lhes ordeno que se retirem em paz ou aceitem as conseqüências.

O oficial fitou-o em silêncio, aturdido por um instante, depois reiterou, com palavras e atos, que deviam abrir os portões... e depressa.

— Retirem-se daqui! — Sem se virar, Pallidar gritou: — Dragões apenas preparar para uma rajada!

No mesmo instante, os dez dragões se adiantaram, em formação, postaram-se em duas fileiras diante dos portões, a da frente ficou de joelhos, as dez travas de segurança foram puxadas ao mesmo tempo, os cartuchos colocados, os rifles apontados. No repentino silêncio, Pallidar desafivelou seu coldre.

— Retirem-se!

Abruptamente, o oficial dos samurais desatou a rir, e o riso espalhou-se pela multidão.

Havia centenas de samurais, outros milhares nas proximidades, e mais outros milhares ao fácil alcance. Mas nenhum deles jamais testemunhara a carnificina que uns poucos soldados ingleses, resolutos e disciplinados, podiam afligir com seus rifles de carregar pela culatra, rápidos e fáceis de usar.

Tão depressa quanto se espalhou, o riso cessou. Os dois lados esperavam pelo inevitável primeiro movimento. Uma expectativa frenética dominou a todos: Será a morte, shi kiraru beki, Deus Todo-Poderoso, Namu Amida Butsu...

Hiraga lançou um olhar rápido para Tyrer, percebeu seu desamparo atordoado e praguejou interiormente, sabendo que a qualquer momento o oficial deveria ordenar o ataque, para resguardar as aparências, em meio à hostilidade crescente lá fora. Antes que Hiraga pudesse se conter, seu mecanismo de auto-sobrevivência decidiu assumir um risco e ele se ouviu sussurrar, em inglês... embora nem uma única vez antes tivesse dado a Tyrer qualquer indicação de que conhecia a língua:

— Por favor, confie... por favor, diga palavras... Sencho... doz...

Tyrer ficou espantado.

— Como? Você disse “confie”?

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