— É melhor obedecermos a Sir William. Ordenem que todos arrumem suas coisas... mas sem dar a impressão de que é uma retirada ignominiosa. Não podemos deixar que fiquem com nossas armas... que desfaçatez!... ou fazê-los pensar que estamos fugindo. Vamos sair marchando, com toda pompa, a banda tocando.
— Perfeito! Depois de baixarmos a bandeira, com a devida cerimônia.
— Combinado. Agora, é melhor eu... eu verificar se todos os documentos já foram encaixotados.
O capitão McGregor disse:
— Posso sugerir, senhor... Acho que merece uma taça de champanhe... e creio que ainda nos restam algumas garrafas.
— Obrigado — respondeu Tyrer, radiante. — Talvez possamos... ora, vamos servir também uma ração de rum a todos os homens. E também faremos uma refeição leve antes da partida... vamos mostrar a eles que ninguém pode nos obrigar a uma partida precipitada.
— Organizarei tudo imediatamente — disse McGregor. — Foi muito hábil de sua parte chamar aquele jardineiro para ajudá-lo com as palavras. Algumas até pareciam inglesas. Mas por que queriam revistar a legação?
— Para descobrir... para procurar inimigos do
Mas não há japas aqui, à exceção dos jardineiros, se é mesmo que eles queriam.
Tyrer sentiu o coração bater mais forte, pois isso incriminava Ukiya, mas Pallidar logo acrescentou:
Não vai permitir que eles revistem a nossa legação, não é? Isso criaria um precedente perigoso. A fleuma desapareceu; Pallidar tinha toda razão.
Precedente perigoso.
— Droga! Não pensei nisso na ocasião! McGregor rompeu o silêncio:
— Antes de partirmos, senhor, talvez pudesse convidar o oficial dos samurai
— Uma solução perfeita — concordou Pallidar, satisfeito.
Hiraga tirava as ervas daninhas de um canteiro, perto de uma porta lateral da legação, junto a uma janela aberta, suado e sujo, o sol do fim de tarde ainda quente A bagagem estava sendo empilhada em carroças no pátio, cavalos arreados, alguns soldados já haviam assumido suas posições de marcha. Sentinelas patrulhavam os muros. Lá fora, os samurai
— Agora!
A voz de Tyrer veio da sala. Hiraga certifícou-se de que não era observado, abaixou-se entre as moitas e abriu a porta. Apressado, Tyrer seguiu na frente até uma sala que dava para o pátio e trancou a porta depois que entraram. As cortinas nas janelas fechadas filtravam a luz do sol. Uma escrivaninha e umas poucas cadeiras, rolos de documentos, arquivos, e um revólver na mesa. Tyrer sentou por trás da mesa e indicou uma cadeira.
— Por favor, sente-se. E agora me diga quem é você.
— Primeiro, segredo eu falar inglês, hem?
Hiraga permaneceu de pé, empertigado em toda a sua altura, de certa forma ameaçador.
— Primeiro me diga quem é você, depois decidiremos.
— Não, sentir muito, Taira-san, ser útil você, salvar homens. Muito útil. Verdade, neh ?
— Sim, é verdade. Por que devo manter em segredo?
— Seguro eu... também você.
— Por que eu?
— Talvez não sábio ter... como vocês dizer... ah, sim... segredo outros
— Tenho vinte e um anos.
Hiraga disfarçou sua surpresa e sorriu por baixo da aba do chapéu. Era muito difícil calcular a idade dos
— Guardar segredo?
— Quem é você? Seu nome não é Ukiya, não é mesmo?
— Prometer segredo?
Tyrer respirou fundo, avaliou as conseqüências e deparou com o desastre por todos os lados.
— Concordo.
Seu coração disparou quando Hiraga tirou a lâmina da aba do chapéu, e se censurou por ter sido tão descuidado para assumir aquele risco.
— Perdido por um, perdido por mil — murmurou ele.
— Quê?
— Nada.
Ele observou Hiraga espetar o dedo e depois lhe estender a faca.
— Agora você, por favor.
Tyrer hesitou, sabendo o que estava para acontecer, mas, tendo tomado sua decisão, deu de ombros e obedeceu. Solene, Hiraga encostou seu dedo no de Tyrer, misturando o sangue de ambos.
— Jurar por deuses manter segredo sobre você. Dizer mesma coisa pelo deus cristão, por favor, Taira-san.
— Juro por Deus que manterei segredo por tanto tempo quanto eu puder — declarou Tyrer, solene, perguntando-se para onde o julgamento o levaria. — Onde aprendeu inglês? Numa escola missionária?
—