Raiko desdobrara uma xilogravura, um retrato. Dele. A legenda dizia:
—
— Sim e não. Os artistas têm memória longa, Hiraga-san. Quem sabe um dos samurai
Hiraga sentira um calafrio, especulando se a cortesã Koiko fora traída ou era a traidora.
— Por que ele?
Raiko dera de ombros.
— Ele é o chefe da serpente, quer goste ou não.
Durante toda a noite, Hiraga preocupara-se com o cartaz e o que fazer a respeito. Agora, deixou que Fujiko lhe servisse mais saquê e comentou:
— Esse Taira me espanta, Ori.
— Por que perder tempo com ele? Mate-o.
— Mais tarde, não agora. Observar a ele e aos outros, testá-los, tentar adivinhar suas reações, é como um jogo de xadrez em que as regras mudam constantemente. É fascinante... depois que a gente se acostuma ao fedor.
— Devemos fazer esta noite o que eu queria fazer antes: matá-lo, jogar o corpo perto da casa da guarda e deixar que eles levem a culpa.
Irritado, Ori passou a mão direita pelos fios curtos que já cobriam sua cabeça raspada e o rosto, o ombro esquerdo enfaixado, o braço ainda numa tipóia.
— Amanhã estarei raspado de novo, e voltarei a me sentir como um samurai... Raiko tem um barbeiro em quem pode confiar. Mas raspado ou não, Hiraga, esta indolência forçada está me enlouquecendo.
— E seu ombro?
— O ferimento está limpo. Coça, mas é uma boa coceira. — Ori levantou o braço até a metade. — Não consigo ir além, mas forço um pouco mais a cada dia. Seria difícil usar numa luta. Karma. Mas se matássemos o
— É verdade, mas ele pode ter comentado com alguém e é isso o que não compreendo. Os
—
— Faremos, só que mais tarde... ele é muito valioso por enquanto. Vai revelar os segredos deles, como humilhá-los, como matá-los às centenas e milhares... depois que os tivermos usado para humilhar e destruir o
Hiraga tornou a levantar o copo. No mesmo instante, Fujiko encheu-o, sorrindo para ele.
— Estive até no escritório do líder de todos os ingleses, a cinco passos dele. Estou no centro da autoridade dos
Hiraga era cauteloso demais para revelar a Ori a verdadeira extensão de seu conhecimento ou como persuadira Tyrer a tirá-lo do prédio da legação... ainda mais na presença daquela mulher.
Enquanto reabastecia os copos, ao longo da noite, sorrindo, sempre atenciosa, jamais interrompendo, Fujiko escutava avidamente, embora desse a impressão de que não prestava a menor atenção, querendo fazer uma centena de perguntas, mas muito bem treinada para interferir.
— Limitem-se a escutar, sorriam e finjam que são estúpidas, apenas um brinquedo — diziam todas as
— Em Iedo — acrescentou Hiraga — esse Taira foi muito corajoso, esta noite um covarde. Fujiko, como ele é na cama?
Sorrindo, ela ocultou sua surpresa por alguém poder ser tão indelicado.
— Como qualquer jovem, Hiraga-san.
— Certo, mas como ele é? Está na proporção... homem alto, espada comprida?
— Sinto muito. — Fujiko baixou os olhos, assumiu uma voz humilde. — As damas do mundo dos salgueiros são orientadas para nunca falarem de um cliente com outro, não importa quem seja.
— E nossas regras aplicam-se aos
Ori riu.
— Não vai conseguir arrancar nada dela, ou de qualquer das outras. Já tentei, Raiko-san veio me censurar por interrogá-las. “