— Espere! — gritou Tyrer, em inglês,quando a grade era fechada, para depois acrescentar, suplicante: — Disse que ela não está aqui, não é? Esperar, por favor, Raiko-san. Amanhã... amanhã, Fujiko, sim?

Raiko sacudiu a cabeça, com uma cara de tristeza.

Ah, sinto muito, amanhã também não será possível e muito me aflige ter de dizer isso. Espero que compreenda. Sinto muito.

Tyrer estava consternado.

Não amanhã? Dia seguinte, sim?

Ela hesitou, sorriu, fez outra reverência.

Talvez, Taira-san, talvez, mas sinto muito, não posso prometer nada. Por favor, peça a Nakama para vir aqui durante o dia e direi a ele. Compreendeu? Mande Nakama-san. Boa noite.

Aturdido, Tyrer ficou olhando para a porta, praguejou amargurado, cerrou os punhos, querendo bater em alguma coisa. Levou um momento para se recuperar do intenso desapontamento e depois, abatido, afastou-se.

Hiraga estivera observando através de um pequeno buraco na cerca. Quando Tyrer desapareceu, além da esquina, ele voltou pelo cadinho de pedra sinuoso, através do jardim, imerso em seus pensamentos. O jardim era enganadoramente espaçoso, com pequenos bangalôs, sempre com varandas, cercados por arbustos.

Mas Hiraga evitou a todos, embrenhou-se pelos arbustos, foi bater num painel da cerca, que foi aberto, sem qualquer ruído. O criado fez uma reverência, ele acenou com a cabeça e seguiu por um caminho na direção de uma habitação similar. A maioria das estalagens ou casas possuíam saídas secretas e esconderijos ou ligações com a propriedade vizinha. As que ousavam abrigar os shishi dispensavam atenção especial à segurança... para seu próprio bem. Aquela parte da Casa das Três Carpas era para visitantes muito especiais, com suas próprias instalações para cozinhar e criadas diferentes, mas com as mesmas cortesãs. Na varanda, Hiraga tirou seus geta — sapatos — e puxou a porta de shoji.

— O que ele fez? — perguntou Ori.

— Afastou-se, mansamente. Estranho.

Hiraga balançou a cabeça, espantado, foi sentar à frente de Ori e retribuiu com um cumprimento rápido a reverência profunda de Fujiko. No dia anterior, depois de entregar a carta de Tyrer, ele reservara Fujiko para esta noite, com a divertida aquiescência de Raiko.

— Posso saber por que, Hiraga-san? — perguntara Raiko.

— Só para irritar Taira.

— Acho que ele deixou sua virgindade aqui, com Ako. Depois experimentou Meiko e Fujiko em seguida. Fujiko deixou-o de olhos vesgos.

Ele rira junto com Raiko, simpatizando com ela. Ao ver Fujiko, ficara surpreso, sem entender como seu inimigo podia achar aquela moça atraente. Era vulgar, com cabelos vulgares, tudo nela era vulgar, à exceção dos olhos, grandes demais. Mesmo assim, ele escondera sua opinião, e cumprimentara Raiko por ter adquirido uma flor tão extraordinária, que parecia ter dezesseis anos, embora estivesse com trinta e um, e há quinze fosse cortesã.

— Obrigada, Hiraga-san.— Raiko sorrira.— Tem razão, ela é um patrimônio e tanto. Por alguma razão, o gai-jin gosta de Fujiko. Mas, por favor, não esqueça que o Taira é nosso cliente e que os gai-jin não são como nós. Tendem a se ligarem a uma dama apenas. Por favor, encoraje-o, pois os gai-jin são ricos. Soube que ele é importante e pode ficar aqui por alguns anos.

Sonno-joi.

— Isso cabe a você. Pode cortar suas cabeças, desde que prometa que não o fará aqui, enquanto eu lhes arranco o dinheiro.

— Vai permitir que Ori continue aqui?

— Ori-san é um jovem curioso — comentara Raiko, hesitante. — Muito forte, muito irado, muito irrequieto... prestes a explodir. Tenho medo dele. Posso escondê-lo por mais um ou dois dias, mas... por favor, pode controlá-lo enquanto ele for meu hóspede? Já há problemas suficientes no mundo dos salgueiros, e não precisamos procurar por mais.

— Combinado. Tem alguma notícia de meu primo, Akimoto?

— Ele está são e salvo em Hodogaya, na Casa de Chá da Primeira Lua.

— Mande chamá-lo. — Hiraga tirara um oban de ouro de seu bolso secreto. Notara o brilho nos olhos de Raiko. — Isto pagará por qualquer mensageiro e pelas despesas de Ori e Akimoto aqui... e também pelos serviços de Fujiko amanhã.

— Certo. — A moeda, um pagamento bastante generoso, desaparecera na manga de Raiko. — Ori-san pode ficar até eu achar que é tempo de partir. Quando chegar esse momento, sinto muito, mas ele terá de ir embora. Concorda?

— Claro.

— E agora, shishi, sinto muito, mas devo dizer que sua presença aqui é muito perigosa. Isto está sendo enviado para todas as barreiras.

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