Os dois homens riram, mas Fujiko percebeu que não havia nenhum sorriso nos olhos de Hiraga. Fingindo não notar, ansiosa em apaziguá-lo, ao mesmo tempo em que especulava como teria de servi-lo naquela noite, ela disse:

— Sinto muito, Hiraga-san, mas minha experiência é pouca, com jovens velhos ou intermediários. Mas a maioria, damas experientes, diz que o tamanho não garante satisfação, nem para ele, nem para ela, mas que os jovens são sempre os clientes melhores e mais satisfatórios.

Fujiko riu para si mesma, pela mentira tão usada. Gostaria de lhe dizer a verdade, por uma vez: que vocês, jovens, são os piores clientes, os mais exigentes os menos satisfatórios. São todos irremediavelmente impacientes, com uma abundância de vigor, clamam por muitas entradas, esguicham poças de essência mas há pouco contentamento depois... e quase nunca se mostram generosos. O pior de tudo é que uma de nós, por mais que tente evitar, pode se apaixonar por um jovem em particular e isso acarreta ainda mais sofrimento, desastre e até o suicídio, na maioria das vezes. O velho é vinte vezes melhor.

— Alguns jovens são muito tímidos, embora bem-dotados — disse ela, respondendo sem responder.

— Interessante. Ori, ainda não posso acreditar que esse Taira tenha ido embora mansamente, sem protestar.

Ori deu de ombros.

— Manso ou não, ele deveria estar morto esta noite e eu dormiria melhor. O que mais ele podia fazer?

— Tudo. Deveria ter derrubado a porta a pontapés... um encontro marcado é um encontro marcado, e o fato de Raiko não ter uma substituta à espera foi um insulto adicional.

— A porta e a cerca são muito resistentes, até mesmo para nós.

— Neste caso, ele deveria ter ido até a rua principal, recrutado cinco, dez ou vinte dos seus companheiros, e voltado para derrubar a cerca. Afinal, é um homem importante, e todos os oficiais e soldados obedeciam às suas ordens na legação. Tal atitude, com toda certeza, faria com que Raiko se ajoelhasse diante dele por um ano ou mais, e lhe garantiria os serviços que quisesse no momento em que desejasse... e nós talvez tivéssemos de fugir. Isso é o que eu faria, se fosse uma autoridade tão importante quanto ele.

Hiraga sorriu e Fujiko reprimiu um calafrio de medo.

— É uma questão de honra. Contudo, eles compreendem essas coisas muito bem. Teriam defendido sua estúpida legação até o último homem, e depois a esquadra arrasaria Iedo.

— Não é isso o que queremos?

— É, sim. — Hiraga soltou uma risada.— Mas não quando se está sem armas, rastejando como um jardineiro... eu me sinto completamente nu!

Outra dose de saquê. Hiraga olhou para Fujiko. Em circunstâncias normais, muito embora a mulher daquela noite não fosse muito atraente, sua virilidade habitual e o saquê o excitariam. Mas esta noite era diferente. Afinal, encontrava-se na Yoshiwara dos gai-jin, a mulher já fora para a cama com eles, por isso está contaminada. Talvez Ori a quisesse, pensou ele, sorrindo para Fujiko, a fim de salvar as aparências.

— Peça alguma comida, está bem, Fujiko? A melhor que a casa possa oferecer.

— Agora mesmo, Hiraga-san.

Ela se retirou, apressada.

— Escute, Ori — sussurrou Hiraga, tão baixo que mais ninguém poderia ouvir —, há grande perigo por aqui.

Ele tirou do bolso o cartaz dobrado. Ori ficou chocado.

— Dois koku! É uma tentação para qualquer um. Não está muito parecido com você, mas um guarda de barreira poderia detê-lo.

— Raiko disse a mesma coisa.

Ori fitou-o.

— Joun era um artista e dos bons.

— Pensei nisso e tenho me perguntado como o prenderam, até que ponto o obrigaram a falar. Ele conhece muitos segredos dos shishi, está a par do planejamento de Katsumata para interceptar o xógum.

— É lamentável permitir que seja capturado vivo. É óbvio que o inimigo se infiltrou em nossa organização. — Ori devolveu o cartaz. — Dois koku tentariam qualquer pessoa, até mesmo a mama-san mais leal.

— Pensei nisso também.

— Deixe crescer a barba, Hiraga, ou o bigode. Isso ajudaria.

— Tem razão, ajudaria bastante. — Hiraga sentiu-se contente por Ori ter se recuperado, pois seus conselhos eram sempre valiosos. — É uma estranha sensação, saber que este cartaz circula por aí.

Um longo momento de silêncio, rompido por Ori:

— Dentro de um ou dois dias, assim que eu puder, e me sinto mais forte a cada dia, partirei para Quioto, a fim de avisar Katsumata sobre Joun. Ele deve ser alertado.

— É uma ótima idéia.

— E você, o que vai fazer?

— Estou seguro entre os gai-jin, mais seguro do que em qualquer outro lugar... enquanto ninguém me trair. Akimoto está em Hodogaya. Mandei chamá-lo e depois poderemos decidir.

— Fez bem. Seria mais seguro se tentasse ir para Quioto agora, antes que esses retratos sejam enviados por toda a Tokaidô.

— Não. Taira é uma oportunidade boa demais para se perder. Esconderei as espadas lá, para qualquer emergência.

— Arrume um revólver. É menos óbvio.

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