Em vez de escrito em holandês, como era habitual, estava em caracteres com a concordância de Seratard, Johann convocara um dos missionários jesuíta franceses visitantes e produzira uma tradução aproximada, que Tyrer converteria para o inglês. A mensagem era do Conselho de Anciãos, assinada por Anjo:
— Johann — disse Sir William, a voz gelada—, não acha que é um tratamento grosseiro, infame e absolutamente vil?
Cauteloso, o suíço respondeu:
— Nem tanto assim, senhor.
— Pelo amor de Deus, passei dias negociando, ameaçando, perdendo o sono, renegociando, até eles jurarem pela cabeça do xógum que se reuniriam em Iedo, no dia 5 de novembro, o encontro com o xógum no dia seguinte, e agora isto!
Sir William tomou um gole do seu drinque, engasgou e praguejou por quase cinco minutos, em inglês, francês e russo, os outros fitando-o com admiração, pelas vulgaridades esplendidamente descritivas.
— Tem toda razão — declarou o almirante. — Tyrer, Sirva outro gim para Sir William.
Tyrer obedeceu no mesmo instante. Sir William pegou seu lenço, assoou o nariz, aspirou um pouco de rapé, espirrou, tornou a assoar o nariz.
— A sífilis para todos eles!
— O que propõe, Sir William? — indagou o almirante, evitando que transparecesse em seu rosto a satisfação por mais essa humilhação de seu adversário.
— É claro que responderei imediatamente. Por favor, mande a esquadra para Iedo amanhã, a fim de bombardear as instalações portuárias que eu indicar.
Os olhos azuis do almirante se contraíram.
— Creio que devemos discutir esse assunto em particular. Cavalheiros. Tyrer e Johann encaminharam-se para a porta.
— Não! — protestou Sir William, muito tenso. — Johann, você pode sair. Espere lá fora, por favor. Tyrer é meu assistente pessoal e vai ficar. O pescoço do almirante ficou vermelho, mas ele não disse nada, até Johann fechar a porta.
— Conhece muito bem a minha posição sobre o bombardeio. Até chegar uma ordem expressa da Inglaterra, não determinarei nenhum bombardeio, a menos que seja atacado.
— Sua posição torna impossíveis as negociações. O poder vem do cano de nossos canhões e de mais nada!
— Concordo. Só discordamos sobre o momento oportuno.
— A decisão sobre o melhor momento cabe a mim. Portanto, faça a gentileza de ordenar apenas um pequeno canhoneio, vinte balas, nos alvos que eu indicar.
— Já disse que não! Será que não fui bastante claro? Quando a ordem chegar, incendiarei todo o Japão, se necessário, mas não antes.
Foi a vez de Sir William ficar vermelho.
— Sua relutância em apoiar a política de sua majestade da melhor maneira possível é inacreditável.
— Parece-me que o verdadeiro problema é o engrandecimento pessoal. Que importância podem ter uns poucos meses? Nenhuma... exceto pela prudência.
— A prudência que se dane! — berrou Sir William, furioso. — Claro que receberemos instruções para agir como eu, repito, como eu determinar! É imprudente protelar. Pela correspondência de amanhã, enviarei um pedido para que seja substituído por um oficial mais afinado com os interesses de sua majestade... e treinado em batalha!
O almirante ficou roxo. Só umas poucas pessoas sabiam que nunca participara, em toda a sua carreira, de qualquer combate, em terra ou no mar. Assim que recuperou o controle, ele disse:
— É um privilégio que lhe cabe, senhor. Enquanto isso, até meu substituto chegar, ou o seu, eu comando as forças de sua majestade no Japão. Boa noite, senhor.
Ele saiu, batendo a porta.
— Um patife grosseiro — murmurou Sir William, depois constatando, surpreso, a presença de Tyrer, paralisado pelas circunstâncias. — É melhor ficar de boca fechada, Tyrer. Eles lhe ensinaram isso?
— Sim, senhor.
— Ainda bem. — Sir William tratou de desviar sua mente do nó górdio do
— Sim, senhor.
— Antes que eu me esqueça, que história é essa de uma escaramuça entre um samurai de estimação e o exército britânico?