— Ah, mas você sorri, honrado samurai! Não é um truque para ganhar mais dinheiro — disse ela no mesmo instante, os dedos nas costas de Hiraga. — Minha avó, que também era cega, transmitiu-me o segredo.

— Como soube que eu sorri?

A jovem riu, o que lembrou a Hiraga o som de uma cotovia flutuando nas correntes de ar do amanhecer.

— Um sorriso começa em muitas partes do corpo. Meus dedos o escutam em seus músculos, e às vezes até os pensamentos.

— E em que estou pensando agora?

— Em Sonno-joi. Ah, eu acertei! — Outra vez a risada que o desconcertava — Mas não tenha qualquer receio, não disse nada, os fregueses aqui nunca dizem nada, e eu nada direi. Mas meus dedos me dizem que é um espadachim especial. O melhor a que já servi. É evidente que não é do Bakufu. Portanto, deve ser ronin e ronin por opção, já que é hóspede nesta casa. Ou seja, deve ser um shishi o primeiro que já tivemos aqui.

Ela fez uma reverência, antes de acrescentar:

— Todos nos sentimos honrados. Se eu fosse homem, apoiaria Sonno-joi.

Deliberadamente, a ponta de seu dedo, dura como aço, pressionou um centro nervoso e ela sentiu o tremor de dor percorrer o corpo de Hiraga. Ficou satisfeita por ser capaz de ajudá-lo muito mais do que ele imaginava.

— Sinto muito, mas este é um ponto muito importante para rejuvenescê-lo e manter o fluxo de seus humores.

Hiraga soltou um grunhido, a dor comprimindo-o contra os futons, mas ao mesmo tempo experimentando uma estranha satisfação.

— Sua avó também era massagista?

— Era, sim. Em minha família, pelo menos uma menina em cada segunda geração nasce cega. Foi a minha vez nesta vida.

— Karma.

— É verdaae. Dizem que na China de hoje os pais ou mães cegam uma de suas filhas, a fim de que ela possa obter, quando crescer, um emprego para a vida toda.

Hiraga nunca ouvira falar a respeito, mas acreditou, e sentiu-se furioso.

— Aqui não é a China, e nunca será. Um dia ainda vamos conquistar a China e civilizá-la.

— Oh, lamento perturbar sua harmonia, lorde. Por favor, perdoe-me. Ah, assim é melhor. Mais uma vez, peço que me desculpe, por favor. Estava dizendo, lorde... civilizar a China? Como o ditador Nakamura queria fazer? É possível?

— É, sim, um dia. É o nosso destino assumir o trono do dragão, como é o seu destino massagear e não falar.

Outra vez a risada gentil.

— Sim, lorde.

Hiraga suspirou, enquanto o dedo da jovem soltava o ponto de pressão, a dor dando lugar a uma satisfação agradável. Portanto, todos sabem que sou shishi, pensou ele. Quanto tempo se passará antes de ser traído por alguém? Por que não? Dois koku é uma fortuna.

Não fora fácil encontrar este refúgio. Ao entrar na aldeia, deparara com um silêncio consternado, pois todos viram que se tratava de um samurai, um samurai sem espadas, parecendo descontrolado. A rua esvaziara-se, exceto pelos mais próximos, que se ajoelharam e aguardaram seu destino.

— Você, velho, onde fica a ryokan mais próxima... a estalagem?

— Não temos nenhuma, lorde, não há necessidade, honrado lorde. — balbucira o idoso consciente, o medo fazendo-o falar apressadamente. — Não precisamos, já que nossa Yoshiwara fica aqui perto, maior que na maioria das cidades, com dezenas de lugares em que um homem pode se alojar, com mais de uma centena de mulheres, sem contar as criadas, três gueixas de verdade e sete aprendizes, e é por isso...

— Já chega! Onde é a casa do shoya?

— Aquela ali, senhor.

— Onde, seu tolo? Levante-se e me leve até lá! Ainda enfurecido. Hiraga seguira o velho pela rua,querendo esmurrar os olhos que o observavam de todas as aberturas, sufocar os sussurros em sua esteira.

— É esta, lorde.

Hiraga acenara para que o velho fosse embora. A placa na frente da loja aberta, repleta de mercadorias de todos os tipos, mas vazia de pessoas, anunciava que ali era a residência e local de negócios de Ichi Ryoshi, shoya, mercador de arroz e banqueiro, o agente em Iocoama da Gyokoyama. A Gyokoyama era uma zaibatsu — significando um complexo de negócios de família — muito poderosa em Iedo e Osaca, mercadores de arroz e saquê, assim como destiladores de cerveja e também, o mais importante, banqueiros.

Hiraga fizera um esforço para se controlar. Com extremo cuidado e polidez, batera na porta, ficara de cócoras e começara a esperar, tentando dominar a dor pela surra que levara da patrulha de dez homens. Depois de um longo momento, um homem de meia-idade, rosto forte, aparecera na loja aberta, ajoelhara, fizera uma reverência. Hiraga também fizera uma reverência, apresentara-se como Nakama Otami e mencionara que seu avô também era shoya, sem indicar onde, mas fornecendo informações suficientes para que o homem soubesse que era verdade. Indagara se, talvez, já que não havia nenhuma ryokan ali, o shoya não teria um quarto vago para hóspedes pagantes.

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