Tyrer relatou os detalhes e sua solução, mas não falou sobre a ameaça do sensei de pegar suas espadas, sentindo-se mais culpado do que nunca por esconder fatos do ministro.

— Eu gostaria de mantê-lo aqui, senhor... com sua aprovação, é claro. É um mestre excelente e creio que nos será muito útil.

— Duvido muito e é ainda mais importante que não haja novos problemas aqui. Não há como prever o que esse homem fará. Pode se tornar uma víbora no nosso ninho. Terá de ir embora amanhã.

— Mas ele já me forneceu algumas informações muito valiosas, senhor! —protestou Tyrer, reprimindo sua súbita aflição. — Por exemplo, contou-me que o xógum é apenas um menino, mal completou dezesseis anos, e não passa de um títere do Bakufu, o verdadeiro poder pertence ao imperador... ele usou o títere do micado várias vezes... que vive em Quioto.

— Deus Todo-Poderoso! — explodiu Sir William. — Isso é mesmo verdade? Tyrer já ia revelar que Hiraga falava inglês, mas conteve-se a tempo.

— Ainda não tenho certeza, senhor. Não tive tempo de interrogá-lo direito pois é um homem difícil, mas creio que é verdade.

Sir William sentia-se ansioso com as implicações da informação.

— O que mais ele disse?

— Apenas comecei, e essas coisas demoram, senhor, como deve compreender. — O excitamento de Tyrer era cada vez maior. — Mas já me falou sobre os ronin. A palavra significa “onda”, senhor. São chamados de ronin porque são livres como as ondas. São todos samurais, mas proscritos por diversas razões. A maioria é adversária do Bakufu, como Nakama. Acham que usurparam o poder do midaco... oh, desculpe, micado, como falei.

— Espere um pouco, Tyrer. Fale mais devagar. Temos bastante tempo. O que é exatamente um ronin?

Tyrer contou.

— Por Deus! — Sir William pensou por um momento. — Portanto, os ronin são samurais que foram proscritos porque seu rei caiu em desgraça, ou proscritos por seus reis, porque cometeram crimes reais ou imaginários, ou proscritos voluntários, que estão se agrupando para derrubar o governo central do xógum títere?

— Sim, senhor. Ele diz que o governo é ilegal.

Sir William tomou o último gole de seu gim, acenando com a cabeça para si mesmo, atônito e exultante, enquanto repassava tudo em sua mente.

— Então Nakama é um ronin, o que você chama de um dissidente e chamaria de um revolucionário?

— Sim, senhor. Com licença, senhor, mas posso sentar? — perguntou Tyrer com a voz trêmula, ansioso em contar a verdade sobre o homem, mas com medo fazê-lo.

— Claro, claro, Tyrer, desculpe. Mas, primeiro, sirva-se de outro xerez e traga uma dose de gim.

Sir William observou-o, satisfeito com ele, mas também um pouco com pena. Com anos de lida com diplomatas, espiões, meias verdades, mentiras e clamorosas desinformações faziam soar os sinais de alarme de que alguma coisa lhe era ocultada. Ele aceitou o drinque.

— Obrigado. Sente naquela cadeira, é a mais confortável. A nós. Você deve estar falando um excelente japonês para obter tudo isso em tão pouco tempo.

— Não, senhor, ainda não, mas passo bastante tempo estudando. Com Nakama, uso a paciência, gestos, umas poucas palavras de inglês, palavras e frases japonesas que André Poncin me ensinou. Ele tem me ajudado muito, senhor.

— André sabe o que esse homem lhe contou?

— Não, senhor.

— Não lhe diga nada. Absolutamente nada. Mais alguém sabe?

— Não, senhor, exceto Jamie McFay. — Tyrer tomou um gole do xerez. — Ele já sabia alguma coisa, e... hum... foi muito persuasivo, arrancou-me a informação sobre o xógum.

Sir William suspirou.

— É verdade, Jamie pode ser muito persuasivo, para dizer o mínimo, e sempre sabe muito mais do que diz.

Ele recostou-se na confortável cadeira giratória de couro antigo, tomou outro gole do drinque, a mente avaliando todos aqueles novos conhecimentos, de valor inestimável, já reformulando sua resposta para a rude missiva daquela noite, especulando até que ponto ousaria jogar, o quanto podia confiar na informação de Tyrer. Como sempre, nessas circunstâncias, ele recordou, contrafeito, os comentários de despedida do subsecretário permanente sobre o fracasso.

— A respeito de Nakama, concordarei com seu plano, Phillip... posso chamá-lo de Phillip?

Tyrer corou de satisfação pelo súbito e inesperado cumprimento.

— Claro, senhor. Obrigado.

— Eu é que agradeço. No momento, concordarei com seu plano, mas, pelo amor de Deus, tome cuidado com ele, não esqueça que os ronin têm cometido todos os tipos de assassinatos, à exceção do pobre Canterbury.

— Tomarei cuidado, Sir William. Não se preocupe.

— Arranque tudo o que puder dele, mas não conte a mais ninguém, e me transmita imediatamente. Pelo amor de Deus, tome cuidado, sempre tenha um revólver na mão, e se ele apresentar a menor indicação de violência, trate de atirar ou ponha-o a ferros.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги