Passaram por fileiras de canhões reluzentes no tombadilho superior — o convés principal, com uma atividade intensa por toda parte, canhões sendo imobilizados em suas posições, cabos enrolados, velas inspecionadas, fumaça saindo pela chaminé — subiram por uma passagem, desceram por outra, para o segundo convés de canhões, onde outros marujos também cuidavam dos equipamentos, e chegaram ao camarote do almirante, na popa. O fuzileiro de sentinela assumiu posição de sentido, enquanto Marlowe batia na porta.

— Sir William?

— Abra logo essa porta, Marlowe, pelo amor de Deus!

Marlowe abriu a porta para Sir William e começou a fechá-la.

— Fique aqui, Marlowe! — ordenou o almirante.

O camarote grande estendia-se por toda a popa do navio, com várias vigias, na mesa grande, cadeiras presas ao chão, um pequeno beliche, vaso sanitário, aparador largo, cheio de garrafas de cristal. O almirante e o general meio que ergueram, numa polidez simbólica, e tornaram a sentar. Marlowe permaneceu junto da porta.

— Obrigado por vir tão depressa, Sir William. Conhaque? Xerez?

— Conhaque, almirante Ketterer. Obrigado. Algum problema?

O homem de rosto vermelho lançou um olhar irritado para Marlowe.

— Faça o favor de servir um conhaque para Sir William, Marlowe.— Depois, ele jogou um papel em cima da mesa. — Despacho de Hong Kong.

Depois das saudações floreadas habituais, o despacho dizia:

Deve seguir imediatamente, com a nave capitânia e mais quatro ou cinco navios de guerra, para o porto de Boh Chih Seh, ao norte de Xangai (coordenadas no verso), onde se encontra agora abrigada a frota principal do pirata Wu Sung Choi. Há uma semana, um enxame de juncos desse pirata, hasteando com toda arrogância sua bandeira — do Lótus Branco —, interceptou e afundou o navio de correspondência Bonny Sailor, nas águas ao largo da baía de Mirs, o refúgio pirata ao norte de Hong Kong. A esquadra aqui cuidará da baía de Mirs. Você deve destruir Boh Chih Seh e afundar todas as embarcações que não sejam de pesca, caso o líder, que acreditamos ser Chu Fang Choy, se recusar a arriar sua bandeira e se entregar à justiça de sua majestade.

Cumprida essa missão, envie um navio para cá, com um relatório, e retorne a Iocoama, colocando-se à disposição, como sempre, dos servidores de sua majestade. Mostre este comunicado a Sir William e lhe entregue, por favor, a mensagem anexa. As. Stanshope, K.C.B., governador do Extremo Oriente.

PS: O Bonny Sailor afundou com todas as pessoas a bordo, setenta e seis oficiais e marujos, dez passageiros, inclusive uma inglesa, esposa de um mercador aqui, uma carga de ouro, ópio e arroz no valor de dez mil guinéus. Chu Fang Choy teve a desfaçatez de mandar entregar na casa do governo um saco contendo o diário de bordo e quarenta e três pares de orelhas, com uma carta pedindo desculpas por não ter sido capaz de recuperar as demais. As orelhas da mulher não estavam incluídas e tememos o pior por ela.

— Desgraçados! — murmurou Sir William, experimentando uma náusea adicional ao pensamento de que, já que os piratas eram endêmicos em todas as águas asiáticas, em particular do norte de Cingapura até Pequim, e as frotas do Lótus Branco as mais abundantes e notórias, a mulher poderia muito bem ter sido sua esposa, que deveria chegar a Hong Kong a qualquer semana, procedente da Inglaterra, com três de seus filhos. — Vão partir com a maré cheia?

— Isso mesmo.

O almirante estendeu um envelope por cima da mesa. Sir William rompeu o lacre e leu:

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