— Sinto muito, difícil explicar, ainda não ter palavras suficientes. Apenas gracejo, gracejo homem-mulher, entende?

— Wakarimasu. Igreja hoje, você gostar?

Com a aprovação de Sir William e o ansioso consentimento do reverendo Michaelmas Tweet, ele levara Hiraga para a galeria do coro. Vestindo as suas novas roupas ocidentais, aprontadas com a habitual e inacreditável rapidez pelo alfaiate japonês, Hiraga passava por eurasiano, mal sendo notado. A não ser por Jamie McFay, que piscara discretamente.

— Igreja boa, sua explicação também — respondeu Hiraga.

Por dentro, no entanto, ele ainda tentava colocar todas as informações de Tyrer na devida perspectiva, assim como a espantosa visão de todos aqueles homens adultos e duas mulheres de aparência repulsiva, cantando em uníssono, levantando, sentando, entoando solenes as orações, inclinando a cabeça, para o Deus muito estranho dos gai-jin, que era na verdade, como Tyrer explicara depois do serviço três pessoas ao mesmo tempo, o Pai, o Filho, que fora crucificado como um criminoso comum, e um kami.

— So ka? — dissera Hiraga, perplexo. — Assim, Taira-san, mulher nome Madona não deus tem filho Deus... mas ela não Deus... e ela deitar com kami que não Deus, mas como hatomoto de Deus com asa, que não marido, e marido que também não Deus, mas pai é, assim pai de seu filho ser avô, neh?

— Não, não houve travesseiro. Deve entender...

Ele tornara a escutar e acabara fingindo que compreendia, a fim de poder interrogar Taira sobre a hostilidade entre as duas igrejas, pois notara que a mulher de Ori não se encontrava presente ali, e perguntara por quê. Duas igrejas, igualmente poderosas, sempre em guerra! E Ori queria que eu renunciasse a essas informações. Baka!

E quando, a cabeça doendo de tanta concentração, ele descobrira a razão para o cisma — e a resultante escalada de ódio, matanças e guerras universais —, tivera certeza de que em algumas áreas os gai-jin eram totalmente loucos: a divisão ocorrera apenas porque um velho bonzo chamado Lutero, trezentos e tantos anos antes, apresentara uma interpretação diferente de alguma pequena questão de dogma, que havia sido inventada por outro bonzo quatorze ou quinze séculos antes dele. Esse homem, obviamente outro doido, determinara, entre outras coisas, que a pobreza devia ser procurada, e que não deitar com mulheres mandaria um homem, depois da morte, para um lugar chamado Paraíso, onde não havia saquê, nem comida, nem mulheres, e ele se transformava numa ave.

Os bárbaros estão além da compreensão. Quem poderia querer ir para um lugar assim? Qualquer um podia perceber que o velho bonzo era como qualquer outro tolo ambicioso e descontente, que apenas queria, depois de uma vida inteira fingindo ser casto, ter uma esposa ou concubina, como qualquer bonzo ou homem comum que tivesse um pouco de sensatez.

— Taira-san — murmurara ele, atordoado —, precisar banho, massagem, saquê, você também, depois comida. Vir comigo, por favor.

A princípio, ele se preocupara com o convite. O ancião da aldeia, o shoya, poderia assim descobrir que ele falava inglês.

— Ah, como é maravilhoso falar gai-jin, eu bem que gostaria, Otami-san! exclamara o shoya, com uma admiração evidente. — Posso lhe dizer mais uma vez que apoio Sonno-joi, e também que designei o mais esperto dos meus filhos para um bonzo gai-jin, com ordens para fingir que se converte às suas crenças ridículas, a fim de poder aprender a língua e os costumes deles.

— Pode cuidar para que os criados sejam seguros?

— Será protegido como se fosse da minha família. Como segurança extra, sugiro que reserve o restaurante inteiro e que mande esse Taira falar apenas japonês na casa de banho. Você diz que aprende depressa?

— E muito.

— Seus segredos estão seguros comigo. Sonno-joi!

Hiraga sorriu, ao recordar o fervor com que o shoya o apoiara, embora não acreditasse nele. Eu gostaria de saber o que ele faria se soubesse de nosso plano de incendiar Iocoama. Iria se cagar todo e, antes mesmo de se limpar, correria para o Bakufu, bateria com a cabeça no chão, em sua pressa de servi-lo, e me trairia.

Baka!

Tyrer continuava a comer, com a maior voracidade. Embora ainda estivesse com fome, Hiraga apenas remexia a comida, de acordo com o costume e treinamento japonês tradicional, de se disciplinar a ficar satisfeito com pouco, já que havia mais tempos de escassez que de abundância, a suportar o frio e a dor com fortaleza, já que havia mais dias ruins do que bons, mais frio do que calor, e por isso era melhor estar preparado. Menos é melhor do que mais. Exceto pelo saquê. E por fornicar. Ele sorriu.

Saquê! Taira-san, tampai!

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