Angelique ajoelhou-se diante da tela do pequeno confessionário, ajeitou-se da melhor forma que as saias volumosas permitiam e iniciou o ritual, as palavras em latim saindo quase unidas, como era normal para os que não liam nem escreviam a língua, mas haviam aprendido as obrigatórias orações e responsas desde a infância, pela constante repetição.

— Perdoe-me, padre, pois eu pequei...

No outro lado da tela, o padre Leo estava mais atento do que o habitual. Em circunstâncias normais, escutava com a metade de um ouvido, certo de que seus penitentes mentiam, os pecados inconfessos, o nível de transgressão elevado — mas não maior que nas outras colônias na Ásia —, e as penitências que ordenava eram cumpridas apenas de uma maneira superficial ou totalmente ignoradas.

— Muito bem, minha criança, você pecou — disse ele, em sua voz mais agradável, com um francês de forte sotaque. Tinha cinqüenta e cinco anos, era corpulento e barbudo, ordenado há vinte e sete anos, em grande parte satisfeito com as migalhas de vida que julgava que Deus lhe permitia. — Que pecados cometeu esta semana?

— Esqueci de pedir perdão à Madona em minhas orações uma noite — respondeu ela, com uma calma absoluta, cumprindo seu pacto. — Também tive muitos pensamentos e sonhos ruins e fiquei com medo, esqueci que me encontrava nas mãos de Deus...

Em Kanagawa, no dia seguinte àquela noite — depois de pensar numa saída para sua catástrofe —, Angelique ajoelhara-se chorando diante do pequeno crucifixo que sempre levava a toda parte.

— Mãe de Deus, não há necessidade de explicar o que aconteceu e de como pequei de forma terrível — soluçara ela, rezando com todo o fervor de que era capaz. — Também não preciso explicar que não tenho ninguém a quem recorrer, ou que preciso desesperadamente de sua ajuda, ou que é óbvio que não posso contar a ninguém, nem mesmo na confissão, não ouso confessar o que ocorreu. Isso destruiria minha única chance... E ela acrescentara:

— Assim, de joelhos, eu lhe suplico, por favor, que façamos um pacto: quando eu disser na confissão esqueci de pedir perdão à Madona em minhas orações uma noite, isso significa na verdade que estou confessando, contando tudo o que lhe falei, e que viu acontecer comigo, junto com as pequenas mentiras que terei de inventar para me proteger. Suplico perdão por pedir isso, mas preciso de sua ajuda, não tenho mais ninguém a quem possa recorrer. Sei que vai me perdoar, e sei também que vai compreender, porque é a Mãe de Deus e uma mulher... vai compreender, e tenho certeza que me absolverá...

Ela podia ver o perfil de padre Leo por trás da tela, sentir o cheiro de vinho e alho em sua respiração. Suspirou, agradeceu à Madona, com toda força de seu coração, por ajudá-la.

— Perdoe-me, padre, pois eu pequei.

— Esses pecados não parecem ser tão terríveis, minha criança.

— Obrigada, padre.

Ela reprimiu um bocejo, preparando-se para aceitar a modesta penitência habitual, depois persignar-se, ser absolvida, agradecer ao padre e se retirar. Almoço no clube com Malcolm e Seratard, sesta em minha linda suíte ao lado dos aposentos de Malcolm, jantar na legação Rus...

— Que tipo de maus pensamentos você teve?

— Ora, apenas impaciência — respondeu Angelique, sem pensar. — E também não me sinto contente por me entregar nas mãos de Deus.

— Impaciência com o quê?

— Ahn... impaciência com minha criada — murmurou ela, confusa, tomada de surpresa. — E também porque meu noivo não se encontra nas melhores condições físicas, como eu gostaria.

— Ah, sim, o tai-pan é um excelente rapaz, mas neto de um grande inimigo da verdadeira igreja. Ele lhe falou sobre seu avô, Dirk Struan?

— Algumas histórias, padre — respondeu Angelique, ainda mais perturbada. Sobre a minha criada, fiquei impa...

— Malcolm Struan é um bom rapaz, não como o avô. Pediu a ele para se tornar católico?

A cor se esvaiu do rosto de Angelique.

— Já conversamos a respeito, mas é uma questão muito delicada, e é claro que não pode ser precipitada.

— Tem razão. — O padre Leo ouvira-a respirar fundo, percebera sua ansiedade. — E concordo que é de extrema importância, para ele e para você.

O padre franziu o rosto, a experiência lhe dizendo que a moça escondia muita coisa... não que isso fosse algo fora do normal, refletiu ele.

Já ia deixar o assunto por aí, mas de repente compreendeu que se tratava de uma oportunidade concedida por Deus para salvar uma alma e ao mesmo tempo realizar um empreendimento valoroso. A vida em Iocoama, ao contrário do que acontecia em seu amado e feliz Portugal, era insípida, com pouco a fazer, exceto pescar, beber, comer e rezar. Sua igreja era pequena e pobre, seu rebanho escasso e ímpio, a colônia uma autêntica prisão.

— Tal conversa pode ser delicada, mas deve ser realizada. A alma imortal do seu noivo corre um risco total. Rezarei por seu sucesso. Seus filhos serão criados na Santa Madre Igreja... ele já concordou com isso, não é?

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги