— Também já conversamos a respeito, padre — respondeu Angelique forçando um tom jovial. — Claro que nossos filhos serão católicos.
— Se não forem, você os lançará à danação eterna e sua alma imortal também correrá perigo. — Ele sentiu-se satisfeito ao ver Angelique estremecer. Ótimo, pensou, um golpe pelo Senhor, contra o anticristo. — Isso deve ser acertado formalmente antes do casamento.
O coração de Angelique disparara, a cabeça doía com a apreensão que tentou impedir que transparecesse na voz, acreditando absolutamente em Deus e no diabo, na vida eterna e na danação eterna.
— Obrigada por seu conselho, padre.
— Falarei com o Sr. Struan.
— Oh, não, padre, por favor, não! — suplicou ela, num súbito pânico. — Isso seria... sugiro que seria insensato.
— Insensato?
O padre contraiu os lábios, coçando distraído os piolhos que habitavam em sua barba, cabelos e batina velha, logo concluindo que o possível golpe da conversão de Struan era um prêmio pelo qual valia esperar, e que precisava de um cuidadoso planejamento.
— Rezarei pela orientação de Deus, e para que Ele a guie também. Mas não se esqueça de que é menor, assim como seu noivo. Suponho que, na ausência de seu pai,
Ele estava radiante, mais do que um pouco satisfeito.
— Agora, como penitência, diga dez ave-marias e leia as epístolas de são João duas vezes, até o próximo domingo... e continue a rezar pela orientação de Deus.
— Obrigada, padre.
Agradecida, Angelique persignou-se, inclinou a cabeça para a bênção.
—
O ritual estava encerrado, e o padre Leo já começava, em sua mente, com Malcolm Struan.
Ao crepúsculo, Phillip Tyrer sentava de pernas cruzadas, diante de Hiraga, numa pequena sala particular de um restaurante também pequeno, meio escondido ao lado da casa do
— Obrigado por me convidar, Nakama-san.
— O prazer é meu, Taira-san. Posso dizer que seu sotaque japonês está melhorando? Por favor, coma.
Sobre a mesa baixa, entre os dois, a criada pusera muitos pratos pequenos, com diferentes alimentos, alguns quentes, alguns frios, em bandejas decorativas laqueadas. Telas de
Hiraga e Tyrer usavam quimonos de dormir, com faixas folgadas. Tyrer desfrutava o conforto inesperado e Hiraga sentia-se aliviado por ter tirado os trajes europeus, que usara durante o dia inteiro. Os dois haviam se banhado e recebido massagens na casa de banhos próxima.
— Por favor, coma.
Desajeitado, Tyrer usou os pauzinhos. Em Pequim, a embaixada aconselhara a não aceitar alimentos chineses:
—... a menos que queira ser envenenado, meu caro. Esses patifes realmente comem cachorro, bebem bílis de cobra, empanturram-se com insetos, qualquer coisa, e possuem uma crença espantosa, mas universal, de que tudo sob o céu pode ser comido. Uma coisa horrível!
Hiraga corrigiu a maneira como ele usava os pauzinhos.
— Assim.
— Obrigado, Nakama-san. Muito difícil. — Tyrer soltou uma risada.— Não engordar vou comendo isto.
— Não vou engordar comendo isto — disse Hiraga, ainda não cansado de corrigir o japonês de Tyrer, pois descobrira que gostava de ensinar.
Tyrer era um discípulo capaz, com uma admirável memória e uma feliz disposição... e ainda mais importante para Hiraga, uma contínua fonte de informações.
— Ah, desculpe, não vou engordar comendo isto. Mas o que é esta comida?
— É o que chamamos de
— Como é feito?