Ori sentava agora a uma mesa velha, junto da janela. Usava uma camisa ordinária e calção, com as pernas à mostra, os pés descalços, a espada curta numa bainha no cinto. O saco de dinheiro se encontrava em cima da mesa. Ele percebeu os olhos contraídos se fixarem no saco. Indiferente, pegou outro dólar mexicano e jogou-o para Timee. O marujo de ombros largos pegou-o no ar, levou a mão ao topete, com um sorriso de poucos dentes, quebrados e amarelados.
— Obrigado. Grude, Guv? — Timee passou a mão pela barriga enorme. — Grude, wakarimasu ka?
A comunicação entre os dois era pela linguagem dos sinais e um pouco de
— Não — disse ele, usando uma das palavras que aprendera, e depois acrescentou, acenando para que Timee se retirasse: — Ceveja.
Sozinho finalmente, ele olhou pela janela. O vidro estava rachado, com sujeira de mosca por toda parte, um canto faltando. A janela dava para a fachada de outro prédio quase em ruínas, um albergue de madeira, a dez metros de distância. O ar recendia a umidade e ele sentia a pele imunda; ficou arrepiado ao pensamento do corpo daquela mulher num contato suado, sem qualquer possibilidade de um civilizado banho japonês depois, embora pudesse tomá-lo sem qualquer problema na aldeia japonesa, a duzentos metros dali, no outro lado da terra de ninguém.
Mas, para isso, correria o risco de encontrar Hiraga e seus espiões à espera, pensou ele, Hiraga, Akimoto e todos os aldeões, que merecem ser crucificados como criminosos comuns, por tentarem impedir meu grandioso projeto. Ralé! Todos eles. Ousando tentar me matar pelo fogo, ousando envenenar o peixe... foi o karma que levou aquele gato a roubá-lo antes que eu pudesse detê-lo, para morrer momentos depois, vomitando, no meu lugar.
Desde então, ele comia com parcimônia, e apenas arroz, que cozinhava pessoalmente, numa panela na grelha, com um pouco de carne ou peixe feita para os outros pensionistas e os clientes do bar, fazendo Timee provar na sua frente, como uma proteção adicional.
A comida é horrível, este lugar é horrível, aquela mulher é horrível e só conseguirei esperar mais uns poucos dias antes de enlouquecer. Os olhos desviaram-se para o saco de dinheiro. Os lábios se repuxaram, deixando os dentes à mostra, num sorriso mórbido.
Na noite do incêndio, na outra choupana, em que dormia num catre, numa alcova mínima, nos fundos do bar, custara-lhe o que restava de seu dinheiro. Muito antes que os outros no albergue despertassem, seu faro para o perigo, aguçado em uma vintena de incêndios desde a infância, alertara-o de repente, arrancando-o do sono, para descobrir as chamas já lambendo a escada de madeira por cima, e a tempo de ver outra cabaça com óleo, um trapo em fogo no gargalo, sendo arremessada para o bar.
Um cão histérico descera a escada em disparada e se juntara a dois gatos que tentavam escapar, frenéticos. Os três animais desataram a correr em torno do bar, derrubando garrafas de bebida, que se espatifavam no chão de pedra, alimentando o incêndio. Soaram gritos no andar por cima, apinhado. Homens seminus desceram a escada, em pânico, as chamas queimando-os, enquanto corriam para a rua. O fogo alcançara a escada. Uma súbita língua de fogo se elevara pelo corrimão, junto da parede seca. O calor no bar era sufocante, gerando um vento que transformava o incêndio num matadouro implacável. Os lados da porta da frente começaram a arder, com a maior intensidade, as chamas quase obstruindo-a. Mais homens desceram correndo a escada, em tumulto, tropeçando uns nos outros, no desespero de atravessar as chamas para sair dali, alguns já com partes das roupas vestidas às pressas pegando fogo. Apenas uns poucos minutos haviam transcorrido desde que começara o incêndio criminoso, mas agora o fogo tinha total domínio, o prédio estava condenado.
Em seu cubículo, Ori não sentira qualquer medo, treinado para situações de incêndio, a salvo da fumaça turbilhonante, estendido no chão, a boca já coberta por um pano encharcado em cerveja, a rota de fuga de emergência automaticamente definida, desde o momento em que ali chegara. Como sempre, a segurança dependia da recusa em se entregar ao pânico e, desta vez, a saída era uma pequena janela fechada, no outro lado do bar, longe da escada em chamas, uma janela que dava para a viela nos fundos.