Ori já ia escapar por ali quando avistara o corpulento proprietário, de camisolão, uma touca com borla, descendo a escada, a lutar com outros homens apavorados, uma caixa de ferro debaixo do braço. Furioso, o proprietário empurrara outro homem à sua frente para as chamas, mas apenas para que as mesmas chamas o convertessem numa tocha humana, gritando; no instante seguinte a escada desabara, arrastando-o e a dois outros para o fogo, vedando qualquer possibilidade de fuga por ali. A caixa escapara dos braços impotentes do proprietário, deslizara pelo chão. Um homem bastante queimado conseguira escapar das chamas, cambaleando para fora. O fogo, voraz, consumira o proprietário e os dois outros homens, e dera a impressão de que se projetava para a caixa, com a mesma voracidade.

Sem qualquer hesitação, Ori correra pelas chamas, pegara a caixa e disparara para a janela, arrebentando sem dificuldade as persianas apodrecidas, escapando são e salvo para a viela dos fundos e o ar fresco. Abaixado, saíra correndo para a cerca oposta, pulara-a e se esgueirara pelo lixo e o mato, ainda agachado, através da terra de ninguém, na direção do poço abandonado.

Ali chegando, ofegante, olhara para trás, cauteloso. As chamas do albergue elevavam-se pelo céu. Homens se agrupavam ao redor, gritando e praguejando. Dois homens saltaram de janelas do segundo andar. Outros, com baldes cheios de água, molhavam as construções ao lado, clamando por ajuda.

Ninguém o notara.

Sob a cobertura do tumulto, ele encontrara uma barra de ferro quebrada, arrombara a caixa, ao mesmo tempo em que afugentava os enxames de insetos noturnos. O tesouro lá dentro fizera-o vibrar. Pusera dois sacos de moedas nos bolsos da calça, outro no bolso da túnica. Com o maior cuidado, enterrara a dúzia de sacos restantes em diferentes lugares, e também a caixa.

Na manhã seguinte, vagueara pela cidade dos bêbados, até encontrar um albergue mais isolado, longe do prédio transformado em cinzas. Dez mex na mão do proprietário, e o peso remanescente do saco, garantiram-lhe serviço imediato e untuoso, um quarto grande, à sua escolha. O proprietário, um homem de olhos azuis fundos e brilhantes — como os dela, pensara Ori, com um súbito e intenso anseio —, apontara para o saco:

— Vão acabar tirando isso de você, meu jovem china.

Ori não entendera as palavras. O significado, no entanto, logo se tornara claro, e produzira Timee. Ori também concluíra que se Timee fosse bem pago, assim como o proprietário, estaria seguro ali ou na rua; quando saísse, seu quarto seria sagrado. Como precaução, sabendo o perigo de depositar toda a sua confiança naqueles homens, Ori também deixara patente, com mais linguagem de sinais e muita paciência, que aqueles sacos constituíam apenas uma parte de sua riqueza, que se encontrava na aldeia, bem guardada, e que se achava disposto a gastá-la com generosidade, por sua proteção, e qualquer outra coisa de que precisasse.

— Você é o Guv, basta dizer o que quer e a gente providencia. Meu nome é Bonzer e sou australiano.

Como quase todas as pessoas na cidade dos bêbados, ele coçava a todo instante as picadas de pulgas e piolhos, os poucos dentes tortos, e fedia demais.

— Guv? Significa Ichiban!, Número Um. Wakarimasu ka?

Hai, domo.

A porta foi aberta, interrompendo a sequência de pensamentos de Ori. Timee trouxera-lhe uma caneca de cerveja.

— Guv, vou papar alguma coisa agora. — Ele tossiu. — Grude, comida, wakarimasu ka?

— Hai.

Acerveja saciou a sede de Ori, mas não aquietou sua mente. Não se comparava à cerveja da aldeia. Nem à de sua terra, Satsuma ou da Yoshiwara ou da Estalagem das Flores da Meia-Noite, em Kanagawa. Ou de qualquer outro lugar.

Devo estar enlouquecendo, pensou ele, atordoado. Aquela puta gai-jin, com sua pele de barriga de sapo e cheiro de peixe, foi pior do que a pior das velhas megeras que já tive, mas mesmo assim desfrutei as nuvens e a chuva duas vezes e queria mais e mais.

O que há com elas? Deve ser pelos olhos azuis, a pele branca, os cabelos púbicos claros... nisso, aquela puta não era muito diferente dela, embora o fosse em todo o resto. Inconsciente, seus dedos reviraram a cruz que usava no pescoço meio escondida. Os lábios se contraíram num sorriso torto. No túnel, enganara Hiraga. O pedaço de metal que jogara longe fora seu último oban de ouro. Estou contente por ter ficado com a cruz... para me lembrar constantemente. E foi mais do que útil sob outros aspectos, fazendo esses estúpidos gai-jin pensarem que sou cristão. O que há nas suas mulheres que me deixa louco?

É o karma, disse ele a si mesmo, decidido, karma que não haja resposta, nunca haverá, exceto... exceto despachá-la para o outro mundo.

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