Seus pés começaram a levá-lo nessa direção. Um súbito rumor, o barulho como o de um trem expresso, uns poucos metros abaixo da superfície, a terra tremeu, e Ori, como todas as outras pessoas na praça, cambaleou, nauseado, acabou caindo de quatro, enquanto a terra subia e descia, para depois parar. Um momento de silêncio, que parecia um grito estridente lançado para o céu. Depois, soaram alguns lamentos, berros, imprecações, que logo foram interrompidos por outro tremor. A terra tornou a se empinar, não tanto quanto antes, mas ainda assim de uma forma bastante terrível, os tremores se prolongaram pelo que pareceu muito tempo, até pararem de novo. Telhas caíram de um telhado. Pessoas corriam ou rastejavam para a segurança. Silêncio de novo, quase palpável, homens silenciosos, gaivotas silenciosas, todos os animais silenciosos. A terra esperando, tudo operando. Estendidos no chão, rezando, praguejando. E esperando.

— Já acabou, pelo amor de Deus? — gritou alguém.

— Já...

— Não...

— Eu espero...

Outro rumor. Ganidos de medo. O barulho aumentou, a terra se contorceu soltando um berro, voltou a ficar imóvel. Vários barracos desabaram. Brados de socorro. Ninguém se mexeu.

Mais uma vez, todos prenderam a respiração. Expectativa. Gemidos, orações súplicas, lamúrias, imprecações. À espera do próximo tremor. O maior de todos Esperando, mas não veio mais nada.

Por enquanto.

Momentos que se transformaram numa eternidade de espera. Depois, Ori sentiu que já acabara e levantou-se, o primeiro na praça, o coração disparado em alegria por não ter morrido desta vez, por continuar vivo e intacto, por renascer são e salvo, mas instintivamente preparado para o próximo perigo, um ímpeto imediato de fogo, que era uma consequência normal, e o maior de todos os riscos a se enfrentar. Cada terremoto era a nêmesis de alguém, um renascimento para todos os outros, e desde tempos imemoriais era encarado assim pelos que viviam na terra dos deuses, que era também chamada de terra das lágrimas.

Abruptamente, o estômago de Ori teve o seu tremor particular. No outro lado da praça, por cima da massa de pessoas ainda estendidas no chão, muitas vomitando e praguejando, ele avistou Hiraga, também de pé, observando-o. Cinqüenta metros além de Hiraga, a maioria dos guardas samurais também já se levantara... e alguns estudavam os dois com uma curiosidade inequívoca.

Quase no mesmo instante em que Ori sentira que o terremoto terminara e se levantara de um pulo, Hiraga e os samurais haviam feito a mesma coisa, numa reação espontânea, experimentando idêntico alívio e renascimento. Hiraga só compreendeu que estava de pé quando percebeu Ori a fitá-lo. Amarrou a cara. Avançou na direção de Ori, enquanto a praça voltava à vida, os homens se levantando, ruidosos, cambaleando. Atordoado, Ori se virou para fugir, mas homens assustados e irados, alguns rindo histéricos, outros balbuciando agradecimentos a Deus, barraram sua passagem — e a perseguição de Hiraga — com gritos de “Mas o que você...”

— Quem você pensa que é me empurrando desse jeito?

— Ei, é um maldito japa!

Foi então que alguém berrou:

— OLHEM! FOGO!

Assim como todos os outros, Ori olhou para o norte. Havia um prédio em chamas na extremidade do passeio. Ele o reconheceu como o quartel-general de dois andares da Struan. Ou talvez o prédio ao lado. Indiferente a todos, Ori saiu correndo.

Hiraga partiu em seu encalço, mas foi nesse momento que um bar desabou, fazendo as pessoas à sua frente correrem para todos os lados, esbarrando nele e quase derrubando-o. Hiraga fez um tremendo esforço para manter o equilíbrio, em meio ao tumulto. Naquela parte da praça, os homens corriam em círculos, a esmo, bloqueando seu caminho. Por um segundo, ele ainda divisou Ori e depois as ruínas do bar pegaram fogo; a multidão recuou, engolfando-o por completo.

Quando Hiraga recuperou o equilíbrio, Ori já desaparecera; por mais que tentasse forçar a passagem para o lugar em que o vira pela última vez, menos progresso conseguia fazer e mais furiosa a multidão se tornava.

— Ei, por que está me empurrando?

— Mas é outro japa desgraçado!

— Vamos dar uma lição no patife!

Depois que Hiraga apaziguou a todos, recuou e deu a volta, encontrando um caminho para a beira da praça, Ori não corria pelo passeio, na direção do incêndio, como ele esperava, nem se afastava pela praia... mas desaparecera por completo.

No prédio da Struan, Jamie McFay subiu correndo a escada, na semi-escuridão, em meio a gritos de alarme de “fogo!”, um lampião a óleo balançando em sua mão, o único candelabro aceso em toda a área da escadaria ainda a balançar devido aos choques. Ele alcançou o patamar, avançou pelo corredor, até a porta aberta de Struan.

Tai-pan, você está bem?

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