O quarto estava escuro, a não ser por um brilho ominoso que dançava pelas cortinas da janela. Struan se encontrava caído ao chão, atordoado, meio vestido para o jantar, sacudindo a cabeça para tentar desanuviá-la, os dois lampiões espatifados, o pavio aberto de um que estava escondido pela cômoda crepitando sobre o tapete encharcado de óleo.

— Acho que sim — balbuciou ele. — Devo ter batido com a cabeça quando caí. Oh, Deus, Angelique!

— Deixe-me ajudá-lo...

— Posso me levantar sozinho, Jamie! Vá ver como ela está!

Jamie tentou a maçaneta da porta de comunicação. Trancada pelo outro lado. Foi nesse instante que o tapete pegou fogo. Struan arrastou-se para longe do fogo, gritando de dor. Antes que as chamas pudessem se espalhar, Jamie tratou de apagá-las com os pés. Em sua pressa para ajudar Struan a escapar, puxou-o de uma forma um tanto rude.

— Por Deus, Jamie, tome cuidado!

— Desculpe. Eu não...

— Não tem importância — murmurou Struan, sentindo uma pontada de dor do lado, onde batera com força ao cair, mais pulsações no estômago, onde antes não havia nenhuma, e as habituais sob o ferimento já cicatrizado, mas ainda dolorido. — Onde é o incêndio?

— Não sei. Estava lá embaixo e...

— Mais tarde... Angelique!

Jamie saiu para o corredor e a fumaça que vinha da outra extremidade fê-lo tossir. Bateu na porta de Angelique, tentou a maçaneta... trancada por dentro também. Ele jogou o ombro contra a madeira perto do batente e conseguiu arrombar a porta. O boudoir se achava vazio, um lampião caído de lado, ainda aceso, o óleo pingando sobre a cômoda, outro espatifado no chão, mais óleo por toda parte. Jamie apagou o pavio, correu para o quarto. Encontrou-a na cama, tão pálida quanto seu penhoar, os olhos fixados no lustre que ainda balançava incongruentemente aceso.

— Você está bem, Angelique?

— Oh, Jamie... — murmurou ela, hesitante, a voz parecendo muito distante — Estou, sim... deitei um pouco antes de me vestir para o jantar e, de repente o quarto começou a balançar. Pensei que era um sonho, mas depois os lampiões caíram e quebraram... Mon Dieu, foi o barulho do prédio sacudindo que mais me assustou... Oh, Malcolm...

— Ele está bem, e é melhor você se vestir depressa, enquanto pode. Não de...

O sino de alarme de incêndio, no escritório próximo do mestre do porto, começou a repicar, provocando um sobressalto nos dois. Com súbita apreensão, Angelique sentiu o cheiro de fumaça, ouviu os gritos abafados lá fora e divisou o clarão através das cortinas da janela.

— Estamos pegando rogo?

— Não há com que se preocupar por enquanto, mas é melhor se vestir tão depressa quanto puder, e passar para o quarto ao lado. Deixarei a porta de ligação destrancada.

McFay saiu apressado. Ela se levantou. Sob o penhoar, usava calça comprida e espartilho. Tratou de vestir a saia, que havia deixado sobre a cama, e pegou um xale.

— Não aconteceu nada com ela, tai-pan — ouviu Jamie dizer, enquanto destrancava a porta de ligação. — Está se vestindo. Deixe-me ajudá-lo a descer...

— Só quando ela descer também.

Jamie fez menção de falar, mudou de idéia, os dois ainda se lembrando do conflito na hora do almoço, sem a menor disposição de fazer qualquer concessão. Foi abrir a janela. No jardim da frente e na rua lá embaixo, havia escriturários e criados, inclusive Vargas, assim como curiosos e homens das várias legações, mas ele não avistou as chamas.

— Vargas! — gritou McFay. — Onde é o nosso incêndio?

— Não temos certeza, senhor, mas achamos que é apenas parte do telhado. Alguns homens já estão lá, junto com o comandante dos bombeiros, mas todo o segundo andar da Brock pegou fogo.

Jamie não podia ver o prédio ao lado, por isso voltou apressado ao boudoir de Angelique e abriu as cortinas. O fogo dominava boa parte da frente do prédio da Brock — uma estrutura de dois andares, parecida com a Struan — onde deveriam ser os quartos principais. A fumaça saía pelas janelas abertas. Dava par ver as fileiras de homens, os baldes com água passando de mão em mão no esforço para se apagar o incêndio, sob a supervisão de Norbert Greyforth — as equipes de fogo da Brock eram treinadas com a mesma freqüência e rigor com que ele próprio cuidava do pessoal da Struan. Empurradas pela brisa, as chamas se projetavam, junto com a fumaça, para cobrir o espaço.

É muito azar ser atingido pelo fogo deles, pensou Jamie, amargurado, para depois inclinar-se pela janela e gritar:

— Vargas, traga homens e água aqui para cima... molhem todo este lado! Depois que estivermos seguros, ajude Norbert!

Espero que o patife queime, e toda a Brock junto com ele, pois isso resolveria para sempre o problema daquele estúpido duelo.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги