— Mas não quer ficar? Lamento muito o incêndio... não sentimos nada no mar, nem mesmo houve uma onda maior. Não se preocupe com sua noiva, teremos o maior prazer em lhe fazer companhia,
Ele acompanhou-os até a porta, Angelique insistindo em pegar o braço de Struan e ir junto até sua residência.
— Estou bem, Angel — murmurou Struan, amando-a mais do que nunca.
— Sei disso, meu amor, mas é meu prazer — disse ela, cheia de boa vontade, agora que André voltara.
Só mais algumas horas e depois estarei livre, pensava Angelique.
O jantar foi um grande sucesso, com Angelique radiante, Seratard exuberante por seu sucesso em Iedo, regalando-os com suas façanhas na Argélia, onde fora a autoridade encarregada de subjugar os nativos, antes de ser enviado para o posto atual, Vervene disputando sua atenção durante o tempo inteiro, relatando versões heróicas de seus feitos anteriores, todos inebriados por sua companhia e pelo vinho abundante, uma garrafa de borgonha por pessoa, com champanhe antes para atiçar as papilas gustativas, e depois para aquietar o estômago. André Poncin começou a relatar histórias picantes de Hong Kong, Xangai e Kowloon, onde os aldeões acreditavam de vez em quando na praga do pênis, que faria com que esse apêndice desaparecesse em seus corpos, por isso todos os homens amarravam um cordão ao redor, prendendo-o no pescoço, a fim de evitar a catástrofe.
— Oh, André, isso é impossível, e uma impertinência de sua parte! — exclamou Angelique.
Ela abanou o leque, em meio aos risos e protestos de André de que era a verdade absoluta, sabendo que chegara o momento de se retirar. Terminou de tomar o segundo copo alto de champanhe, que acompanhou muito bem as três taças anteriores de
— Agora vou deixá-los com seus charutos e conhaque... e com suas histórias maliciosas!
— Fique mais um pouco — pediu Seratard. — André vai tocar para nós.
— Esta noite, não — apressou-se em dizer André. — Se não se importam, há alguns papéis que preciso preparar para amanhã. Sinto muito.
— Tudo pode esperar, o prazer antes dos negócios — insistiu Seratard, como uma ordem jovial. — Esta noite devemos ter música para arrematar o dia, alguma coisa romântica para Angelique.
— Deixe-o descansar um pouco, Henri — interveio ela, o vinho tornando suas faces rosadas, satisfeita porque André se mostrava obviamente ansioso em buscar o medicamento prometido. — Afastou-o dos seus negócios por tempo demais. Afinal, ele não é um dos seus funcionários.
— André adorará tocar para nós.
— Ah, André deve sempre obedecer, hem? Pois eu devo lhe ordenar,
Angelique levantou-se, os joelhos um pouco bambos. Todos a cercaram protestando com veemência.
— Mas estarei aqui amanhã, e pelo menos por mais três dias. — Ela estendeu a mão para André, com um sorriso especial. — Pode se retirar agora. Eu lhe ordeno que cuide dos nossos interesses.
— Pode contar com isso, Angelique.
— Um último drinque...
Ela se permitiu ser persuadida a levar o copo, e depois todos a escoltaram até seus aposentos, para se certificarem de que as trancas nas janelas do
— Resolvemos trocar todas as venezianas desde a última vez em que esteve aqui — explicou Vervene, que já lhe dissera isso antes, os cabelos escassos desgrenhados, radiante e meio tonto. — Não bateram nem mesmo na tempestade da semana passada.
Todos os olhos notaram a camisola e o penhoar verdes, quase transparentes, estendidos na cama, arrumada de forma convidativa pela corpulenta criada, que observava a cena e esperava com expressão desaprovadora. Os lampiões a óleo projetando claridade tênue e criando bruma tornavam o quarto ainda mais sedutor, mais provocante.
Houve mais murmúrios de boa noite e sonhos felizes, com evidente relutância, e depois ela ficou a sós com Ah Soh, a porta para o corredor trancada. A criada despiu-a, escovou seus cabelos, guardou o vestido no armário, junto com suas outras roupas, a lingerie na arca de gavetas, enquanto Angelique cantarolava feliz, contente por se encontrar ali, a salvo para amanhã, exultante por estar sozinha, e porque o incêndio e o terremoto não haviam machucado ninguém nem interferido com seus planos; ao contrário, tornara-os ainda mais simples.
Promoverei a paz entre Malcolm e Jamie, é prejudicial o afastamento dos dois, pensou ela, exuberante, ainda com sede, mas dominada pela satisfação que o vinho proporcionava. Graças a Deus por André. Eu me pergunto como é a Yoshiwara e sua mulher. Vou encorajá-lo a me falar sobre ela, a fim de podermos rir juntos.
— Boa noite, miss.