— Então está tudo acertado — declarou Struan, com uma estranha expressão nos olhos, sentindo-se muito cansado, a maior parte da dor ainda amortecida pelo ópio, mas não a raiva profunda contra Norbert Greyforth.

Monsieur Struan, quero que tenha certeza de que também é bem-vindo aqui — disse Vervene. — Temos aposentos suficientes, já que o ministro e sua equipe se encontram em Iedo, por mais alguns dias.

— Oh! — Angelique se mostrou visivelmente chocada. André teria de buscar o medicamento no dia seguinte. Todas a fitaram, surpresos, e ela se apressou em acrescentar:— Mas André me disse que todos voltariam o mais tardar até amanhã de manhã, depois da reunião hoje com o xógum.

— Depende da pontualidade do xógum, e de como a reunião vai transcorrer... nossos anfitriões não são modelos internacionais de pontualidade, não é mesmo? — Vervene riu da própria piada. — Nunca se sabe o que pode acontecer nessas reuniões oficiais. Pode levar apenas um dia ou até uma semana. Outro conhaque, monsieur Struan?

— Quero, sim, obrigado.

— Mas André disse que a reunião seria esta manhã e que no máximo estariam de volta amanhã!

Angelique fez um esforço para conter as lágrimas, que ameaçavam escorrer por suas faces.

— Qual é o problema, Angel? — indagou Struan, irritado. — Faz alguma diferença quando eles vão voltar?

— Não, mas... mas eu apenas detesto quando alguém diz uma coisa que não é verdade.

— Provavelmente se enganou, e é um absurdo se sentir transtornada com uma coisa tão insignificante. — Struan tomou um gole grande de conhaque.— Pelo amor de Deus, Angel, pare com isso!

— Talvez eles voltem amanhã, mademoiselle — interveio Vervene, sempre o diplomata.

Uma vaca estúpida, pensou ele, por mais apetitosos que sejam seus seios e beijáveis seus lábios, como se isso tivesse alguma importância. Depois de uma pausa, ele acrescentou, com seu sorriso mais insinuante:

— Ora, não importa. O jantar será servido dentro de uma hora. Monsieur McFay, vai nos acompanhar?

— Obrigado, mas não posso. É melhor eu me retirar agora. — Na porta, McFay hesitou. — Tai-pan... ahn... devo voltar para buscá-lo?

— Sou capaz de andar duzentos metros sozinho — protestou Struan, em tom brusco. — Perfeitamente capaz!

E de puxar um gatilho esta noite, ou em qualquer outra noite, ele teve vontade de acrescentar.

Pouco antes de virem para cá, Norbert Greyforth fizera uma pausa no trabalho, o incêndio na Brock quase controlado, e se aproximara pela rua, sem que ele percebesse. Jamie, ao seu lado, orientava Vargas e os outros no combate às chamas, com o Dr. Hoag e o Dr. Babcott nas proximidades, cuidando de queimaduras e de uns poucos ossos fraturados.

O elixir de Ah Tok promovera sua magia habitual e Struan sentia-se bem e confiante, apesar de estranho e querendo dormir, como sempre... fantasiava que dormir o levaria a sonhar, e o sonho seria sobre amar, um contato com a moça japonesa ou com Angelique, com uma paixão cada vez mais intensa, a necessidade delas tão grande quanto a sua, em total erotismo. E, de repente, abruptamente, ele fora arrastado ao presente implacável.

— Boa noite, Jamie. Uma coisa terrível, hem?

— Ah, Norbert — dissera Struan, a polidez ajudada pela euforia. — Lamento o seu azar. Acho que...

Norbert o ignorara, numa atitude deliberada.

— Por sorte, Jamie, não houve danos em nossos escritórios, depósitos ou casas-fortes, tenho certeza de que ficará satisfeito em saber... apenas nos outros aposentos.

Depois, ele simulara ver Struan pela primeira vez, e sua voz se tornara mais alta, mais zombeteira, para que todos ouvissem:

— Ora, ora, se não é o jovem tai-pan da Casa Tão Nobre! Uma péssima noite para você, meu rapaz, não me parece muito bem... perdeu seu leitinho, hem?

A euforia de Struan se dissipara. Através do nevoeiro do opiato, compreendera que se confrontava com o mal, o inimigo à sua frente.

— Não, mas você perdeu as boas maneiras.

— Boas maneiras não são o seu forte, rapaz. — Norbert soltara uma risada. — Isso mesmo, não sofremos prejuízos maiores. Na verdade, nosso novo empreendimento em mineração faz com que sejamos a Casa Nobre no Japão, e muito em breve seremos também em Hong Kong, até o Natal. É melhor voltar correndo para casa, Malcolm.

— O nome é Struan — respondera ele, vendo-se alto, forte e onipotente, sem tomar conhecimento dos outros ao redor, ou que Jamie e Babcott estivessem tentando intervir. — Struan!

— Gosto de jovem Malcolm, jovem Malcolm.

— Na próxima vez em que me chamar assim, eu o chamarei de bastardo sem mãe e estourarei seus miolos, sem esperar que apresente seus padrinhos!

Houve um silêncio profundo nesse instante, realçado ainda mais pelo crepitar das chamas e o zunido do vento. A notícia do desafio na hora do almoço espalhara-se em poucos minutos, e todos aguardavam o próximo movimento no jogo, que vinha fermentando desde que o avô de Malcolm, Dirk Struan, morrera antes de poder matar Tyler Brock, como jurara fazer.

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