Angelique escutava apenas com meia atenção, evitando olhar para o relógio na cornija da lareira, que tiquetaqueava os minutos com extrema lentidão. André informara que retornaria da Yoshiwara por volta das nove horas daquela noite, que ela deveria esperá-lo com um bule quente de chá verde e alguma coisa para comer, já que a poção poderia ter gosto horrível. Também deveria providenciar algumas toalhas e a não tomar mais do medicamento para dormir de Babcott.
Ela tornou a olhar para o relógio: 6:46 h. É uma longa espera, pensou Angelique, sua ansiedade aumentando. E foi então que as vozes interiores ressurgiram. Não se preocupe, sussurraram, as horas passarão depressa, depois você ficará livre, não se esqueça de que venceu, Angelique, foi corajosa e esperta, fez tudo com perfeição — não se preocupe com coisa alguma, você viveu e ele morreu, era a única maneira para você sobreviver, você ou qualquer outra mulher — muito em breve estará livre dele, da coisa, e tudo o que aconteceu antes não passará de um pesadelo...
Estarei livre, graças a Deus, graças a Deus.
O alívio a dominou e ela sorriu para Struan.
— Sua aparência é maravilhosa, Malcolm. Essas roupas estão perfeitas em você.
A jovialidade de Angelique arrancou-o da depressão; tudo ao seu redor era lúgubre... exceto ela. Ele também sorriu, radiante.
— Oh, Angel, se não fosse por você, acho que eu explodiria.
Naquela noite ele se dera ao trabalho de escolher com o maior cuidado as roupas de seda certas, as melhores botas de cano curto, de pelica de corça, uma camisa de seda branca com pregas, gravata branca com um alfinete de rubi que o pai lhe dera em seu último aniversário, de vinte anos, a 21 de maio. Só mais seis meses e serei livre, pensou ele, livre para fazer o que bem quiser.
— Você é a única coisa que me mantém são, Angel — acrescentou ele.
Seu sorriso expulsou os últimos demônios que ainda atormentavam Angelique e ela disse:
— Obrigada, meu querido. Explodir? Por quê?
— Os problemas nos negócios — respondeu Struan, evitando as verdadeiras questões. — Os miseráveis dos políticos vivem prejudicando nossos mercados, em sua busca habitual e obsessiva de poder pessoal, dinheiro e promoção. Nunca muda, não importa qual seja o país, credo ou cor. De modo geral, a situação da Casa Nobre é excelente, graças a Deus.
Ele se absteve de comentar a crise que enfrentavam com o açúcar havaiano e a crescente pressão da Brock sobre os mercados e fontes de crédito da Struan.
Ontem mesmo chegara uma carta ostensivamente hostil do Victoria Bank, o banco central de Hong Kong, dominado pela Brock, cópia da que fora enviada a Tess Struan, como diretora-executiva da Casa Nobre. Sua cópia estava endereçada a M. Struan, esquire, Iocoama, apenas para sua informação:
Não importa o que digam esses desgraçados, pensou ele agora, com absoluta convicção, encontrarei um meio de superá-los e prevalecer sobre todos os Brocks. Matar Norbert será um bom começo. Nossos gerentes e empregados são excelentes, nossa frota ainda é a melhor e nossos capitães são leais.
— Os Brocks e os rumores não têm a menor importância, Angel, podemos lidar com eles, como sempre fizemos. A guerra civil americana aumentou muito os nossos lucros. Estamos ajudando o Sul a contrabandear o algodão através do bloqueio nortista, até nossas tecelagens em Lancashire, levando de volta toda a pólvora, balas, rifles e canhões que Birmingham pode produzir, metade para o Sul, metade para o Norte... com tudo o mais que nossas fábricas podem inventar e fornecer, máquinas, prensas, sapatos, navios, até cera de lacre. A produção britânica é gigantesca, Angelique, mais de cinqüenta por cento dos bens industriais do mundo. Temos também o nosso comércio de chá e de ópio de Bengala para a China, uma colheita excepcional este ano... tenho uma idéia para comprar o algodão indiano, a fim de compensar a escassez do americano... além de todas as nossas cargas normais. A Inglaterra é o país mais rico e mais próspero do mundo, e você é linda!
— Obrigada, gentil senhor!