Ele se levantara da cadeira e interrompeu-a com um beijo... o cheiro forte de charuto e brilhantina viril e agradável. Os braços que a enlaçaram eram musculosos, uma das mãos se desviando para os seios, e ela sentiu a rudeza agressiva, os lábios duros com ligeiro gosto de conhaque. O oposto dele.
Esqueça-o, sussurraram as vozes.
Não posso, ainda não.
Inclinar-se para ela foi uma tensão excessiva para os músculos da barriga e as costas doloridas de Malcolm; por isso, ele se empertigou, com algum esforço, mesmo sabendo que sentiria o maior prazer em possuí-la agora — se tivesse sua aquiescência —, qualquer que fosse a dor.
— Quanto mais cedo nos casarmos, melhor — murmurou ele, certo de que sentira uma reação nos lábios, seios e corpo de Angelique.
— Também acho...
— No Natal. No mês que vem.
— Acha mesmo... sente, meu querido, descanse um pouco. Precisamos conversar... quando voltaremos a Hong Kong?
— Ahn... ainda não decidi.
Muito da jovialidade de Malcolm se dissipou diante da perspectiva de ter de enfrentar a mãe.
— Talvez devêssemos voltar na próxima semana e...
— Só depois que eu estiver em condições.
E quando não estiver mais tomando a poção para a dor, pensou ele, as entranhas ardendo; só assim poderei enfrentar a mãe, os Brocks, e aquele banco miserável. Pouco antes de sair para a legação, ele tomara a segunda dose do dia, mais cedo do que o habitual.
Tomarei uma última antes de dormir e, a partir de amanhã, será tudo diferente. Apenas uma dose por dia, daqui por diante. Não poderia começar a fazer isso hoje... com a noite de ontem, o problema de Norbert e... ora, ontem foi um dia terrível demais.
— Não perturbe sua linda cabecinha com essas coisas.
— Mas eu me preocupo com você, e muito, Malcolm. Jamais haveria de querer interferir em qualquer coisa, mas não posso deixar de me preocupar com você. E há algo que acho que devo mencionar. O problema entre você e Jamie. Não há alguma coisa que eu possa...
O súbito sorriso de Malcolm a fez parar de falar.
— Está tudo bem com Jamie agora, minha querida. É a boa notícia de hoje. Mandei chamá-lo ao final da tarde, e ele se desculpou por ser tão difícil. Até renovou seu juramento de me apoiar em tudo... mas tudo mesmo.
— Mas isso é maravilhoso! Não imagina como me sinto satisfeita. Pouco antes de sua vinda, Jamie McFay pedira para lhe falar.
— Lamento interrompê-lo, mas queria desanuviar o ar carregado e tentar fazer as pazes... e tentar também, pela última vez, dissuadi-lo do duelo. Norbert fará tudo o que puder para matá-lo.
— Desculpe, mas isso não é da sua conta, e pode ter certeza de que eu também tentarei matá-lo. Mas concordo que é uma boa idéia desanuviar o ambiente, de uma vez por todas. Jamie, vai obedecer a mim como o
— Claro que obedecerei ao
— Ótimo. Depois do encontro com Sir William amanhã, pergunte em particular a Norbert se a próxima quarta-feira lhe convém...isso mesmo, Jamie, sei que é o aniversário dele. No hipódromo, por trás da arquibancada, ao amanhecer. Jure segredo, por sua cabeça. Não conte nem mesmo a Dmitri.
— Se você o matar, terá de deixar o Japão imediatamente.
— Já pensei nisso. Nosso clíper Storming Cloud estará na enseada. Embarcaremos nele e partiremos para Hong Kong. Poderei... ora... dar um jeito na situação, aconteça o que acontecer.
— Detesto toda essa idéia.
— Posso entender, mas isso não faz a menor diferença. Lembre-se de seu juramento; pretende mantê-lo?
— Claro.
— Obrigado, Jamie. Vamos ser amigos de novo...
Em meio a seu excitamento, ele ouviu Angelique dizer:
— Ah, isso me deixa muito feliz!
Malcolm teve de se esforçar para não dizer que marcara a data para o duelo, quando finalmente começaria sua vingançacontra a casa dos Brocks. Angel saberá muito em breve, e se sentirá orgulhosa de mim, pensou ele, confiante.
— Não precisa se preocupar com Jamie, minha querida, nem com Hong Kong. Ou qualquer outra coisa.
— Malcolm, meu caro, posso escrever para sua mãe? — perguntou ela.
Angelique sabia que devia começar a atrair a inimiga para a batalha. André avisara que o poder de Tess Struan dentro da companhia era imenso e que ela exercia uma vasta influência sobre Malcolm, seus irmãos e irmãs. Lembrara também que ele ainda não alcançara a maioridade e, assim, o casamento não poderia se realizar por vários meses ainda sem o consentimento da mãe; sem a sua boa vontade, talvez jamais viesse a se consumar. Como se eu precisasse de algum lembrete, pensou Angelique.
— Quero assegurar a ela minha eterna afeição e minha promessa de ser a melhor nora no mundo inteiro.
Ele se mostrou radiante com a idéia.
— Excelente idéia! Escreverei uma carta, também, e mandaremos as duas juntas. — Malcolm pegou a mão de Angelique. — Não existe nenhuma mulher tão maravilhosa quanto você, tão ponderada e gentil; tenho certeza de que a mãe vai amá-la tanto quanto eu.
Hiraga disse, mais uma vez:
— Quando os