— Posso imaginar.
Tyrer mudou de posição na cadeira. Hiraga, sentado à sua frente, também se sentia desconfortável. A sala do pequeno bangalô no terreno da legação, que Tyrer partilhava com o Dr. Babcott, era escassamente mobiliada, com poucas cadeiras, duas escrivaninhas, e o cheiro de unguentos e poções nas prateleiras ao longo de uma parede. As janelas se achavam abertas para a noite; embora não estivesse frio, Hiraga estremecia de vez em quando, ainda perturbado por sua quase captura. No momento em que os atacantes fugiram, criando as condições para que escapasse pelos fundos, ele dissera ao
— Sabem o que acontecerá se eu for apanhado aqui. É melhor o silêncio, o silêncio e uma surra rápida, que logo será esquecida, do que uma viagem até a prisão, da qual nenhum de nós... nem sua esposa e filhos... sobreviverá.
Tyrer acrescentou:
— Mas não entendo por que o oficial num momento parecia normal, e no instante seguinte se tornou um bruto, para logo voltar a ser normal, com todos fingindo que nada acontecera.
Hiraga suspirou.
— Tudo muito simples, Taira-san. O capitão certo que
— Talvez para eles, mas nós ainda temos muitos problemas — murmurou Tyrer, sombrio. — Sir William não está nada feliz, nem com o miserável que foi morto... nem com você.
— Eu não problema, eu não atacar, homens me atacar.
— Desculpe, Nakama, mas não é essa a questão. Ele diz que você é uma complicação incômoda e desnecessária. Sinto muito, mas ele tem razão. As autoridades saberão em breve de sua presença aqui, se é que já não sabem. Vão exigir que o entreguemos... não poderemos evitar; mais cedo ou mais teremos de atender ao pedido.
— Por favor? Não entender.
Tyrer precisou de várias tentativas, com palavras mais simples, para deixar o significado bem claro, e depois acrescentou:
— Sir William mandou lhe dizer que é melhor você ir embora, desaparecer enquanto pode.
O coração de Hiraga quase parou. Desde que escapara da armadilha na aldeia que vinha procurando, frenético, uma maneira de anular as conseqüências inevitáveis do tumulto e de ter sido visto... o oficial dos samurai
Ele sentiu vontade de gritar bem alto, a mente abalada pela sucessão rápida e incontrolável dos acontecimentos, as profundezas do pânico e medo que suportara desde a traição de Ori. Depois, seus ouvidos sintonizaram, e ouviu uma palavra-chave na arenga de Tyrer sobre como lamentava “a perda de um aliado tão valioso na busca por conhecimento do Japão, mas parece que não há nenhuma maneira de evitar...” Sua cabeça voltou a ficar lúcida.
— Tenho idéia, Taira-san. Ruim para mim ir agora, certo morrer. Quero ajudar amigos ingleses, ser valioso aliado, muito valioso amigo. Conhecer sobre
Excitado, Tyrer avaliou a oferta: Sir William com certeza vai concordar, mas apenas se as informações forem de fato valiosas, e apenas se vierem do interrogatório direto do próprio Nakama. Isso significa... oh, Deus, não posso! “Eu teria de revelar a Willie o segredo de que você fala inglês. Não há como evitá-lo e não posso dizer que tenho ocultado uma informação tão vital, pois seria demitido, sem a menor dúvida. Não posso assumir esse risco, não quando Willie se encontra num ânimo tão terrível!” Melhor seria que Nakama partisse antes de sua cabeça rolar e haver um incidente internacional.
— Desculpe — murmurou Tyrer, desesperado —, mas não é possível.
— Ah, sinto muito, talvez ter tempo. — Hiraga fez uma manobra final para ganhar tempo. — Ter mensagem de Fujiko... iii, Taira-san, fazer grande marca nela, agora Fujiko pensar você ser muito melhor amigo.
Ele percebeu o desapontamento imediato de Tyrer, seguido pela resignação e a expectativa, em rápida sucessão.