Pelo modo como ele falou, deixou claro que também se encontrava sob o encantamento de Angelique. Ainda bem que ele compreendeu a verdade, pensou ela, aliviada por outro risco ter sido eliminado. Sua mente desviou-se para os vidros e para o dia seguinte, quando estaria purificada, pronta para iniciar uma vida nova, com um futuro maravilhoso.
— Os japoneses são curiosos — continuou Babcott. — Diferentes. Acima de tudo, diferentes num ponto importante, o de não terem medo de morrer. Quase que dão a impressão de que procuram a morte. Você teve muita sorte em escapar. Bom, acho melhor eu ir agora.
— Muito obrigada por tudo. — Ela pegou a mão de Babcott, comprimiu-a contra seu rosto. — Vai contar a Malcolm e ao Dr. Hoag? Assim acabaremos logo com isso.
— Deixarei Malcolm aos seus cuidados. — Por um instante, ele pensou em pedir a ajuda de Angelique para o problema do vício em ópio de Malcolm, mas concluiu que ainda não era uma coisa urgente; além do mais era responsabilidade sua, não dela. Pobre Angelique, já sofreu demais. — Quanto a Hoag, por que isso seria da sua conta ou dos intrometidos e intrigantes de Iocoama? Não é da conta deles, nem da minha, não é mesmo?
Ele contemplou os olhos claros de Angelique, no rosto risonho e radiante, a pele translúcida, toda ela irradiando juventude e saúde, com a sensualidade magnética e inconsciente que sempre a envolvia, e que parecia ter aumentado de poder, contra todas as expectativas médicas. Espantoso, pensou Babcott, sentindo a maior admiração por tamanha flexibilidade. Eu gostaria apenas de conhecer seu segredo, descobrir por que algumas pessoas vicejam em adversidades que destruiriam a maioria das outras.
Abruptamente, a sua parte de médico desapareceu. Não posso culpar aquele
— É curioso o que aconteceu com sua cruz — murmurou ele, a voz meio rouca, nem um pouco envergonhado por isso. — Mas também a vida é uma sucessão de curiosidades, não é mesmo? Boa noite, minha cara. Duma bem.
A primeira cólica arrancou-a de um sono irrequieto, povoado por demônios aprisionados, grosseiros, estupradores com olhos negros como carvão, as mulheres grávidas, os homens com chifres, afastando-a de Tess Struan, que montava guarda sobre Malcolm como um espírito maligno. Uma segunda cólica veio logo em seguida, e despertando-a para a realidade, para o que estava acontecendo.
O alívio por ter começado ofuscou as horas anteriores de apreensão, que lhe pareceram uma eternidade antes de conseguir adormecer. Passava um pouco das quatro horas da madrugada agora. Eram quase duas e meia na última vez em que consultara o relógio. Outra cólica, mais forte do que a anterior, sacudiu todo o seu corpo, levando-a a se concentrar na seqüência.
Os dedos trêmulos tiraram a rolha do segundo vidro. Outra vez ela engasgou com o gosto pútrido e quase vomitou o líquido, mas conseguiu mantê-lo no estômago, que se contraía em repulsa, com a ajuda de uma colher de mel.
Recostou-se nos travesseiros, ofegando. Um fogo parecia se espalhar, a partir do estômago. Em poucos momentos, o suor porejou por todo o corpo. Mas logo passou, deixando-a inerte, encharcada, mal respirando.
Esperando. Como antes, nada. Apenas uma inquietação nauseante, a mesma que experimentara antes, após horas de ansiedade, ao mergulhar no sono perturbado. Sua consternação aumentou.
— Santa Mãe, faça com que funcione — balbuciou ela, em meio às lágrimas. Mais espera. Ainda nada. Os minutos foram passando.
E então, ao contrário de antes, uma cólica surpreendentemente diferente quase a dobrou. Outra. Apenas suportável. Mais, ainda suportável. Ela se lembrou da segunda metade da infusão, sentou na cama, começou a tomá-la, aos goles. O gosto era ruim, mas não tanto quanto o líquido nos vidros.
— Graças a Deus não tenho mais que beber aquilo — murmurou ela. Tomou outro gole. E mais outro. Depois de cada gole, uma mordida no chocolate...
Outras cólicas, mais fortes agora. Num ritmo crescente. Não se preocupe, tudo está acontecendo conforme André explicou, pensou ela. Os músculos da barriga começavam a parecer distendidos e doloridos. Mais goles, mais cólicas, e depois o último gole desceu por sua garganta. O pote de mel quase vazio... o resto do chocolate, mas agora nem mesmo sua doçura podia se sobrepor ao gosto bilioso. Uma aragem passou por baixo da porta do
— Observe as sombras, pense em coisas boas — sussurrou ela. — O que você vê?