— Deve ser apenas como uma dor de barriga — repetiu ele, suando cada vez mais. — É o início, Angelique, uma cólica. Vou voltar ao início. Tome o primeiro vidro, depois beba a metade da infusão, a metade, lembre-se de que deve fazer tudo na sequência correta... relaxe, tente dormir um pouco, quanto mais relaxada estiver, mais fácil será. Assim que as cólicas começarem, tome o outro vidro, acompanhado por um pouco de mel ou um doce, e depois deve começar... a mama-san disse que seria como uma menstruação mensal mais forte... por isso deve estar preparada... com uma toalha.

André fez uma pausa, tornou a usar o lenço.

— É uma noite abafada, não acha?

— Está frio e não precisa ficar nervoso. — Angelique abriu um dos vidros, cheirou o conteúdo. Torceu o nariz.— É pior do que um banheiro de rua parisiense em agosto.

— Tem certeza que não vai esquecer a seqüência?

— Absoluta. Não se preocupe, eu...

Uma batida naporta provocou-lhes sobressalto. Angelique recolheu apressada os dois vidros e o maço de ervas, guardou tudo na bolsa.

— Entre — disse André.

O Dr. Babcott ocupava todo o vão da porta.

— Ah, Angelique, a criada me avisou que você estava aqui. Vim na esperança de conversar com você por um momento. Boa noite, André.

— Boa noite, monsieur.

— Estou muito bem, doutor — disse ela, com súbita pontada de inquietação, sob o olhar penetrante do médico. — Não precisa se preo...

— Só queria tirar sua temperatura, contar a pulsação e verificar se precisa de um sedativo. É sempre melhor prevenir.

Como ela começasse a protestar, Babcott acrescentou, em tom firme, mas gentil:

— É melhor prevenir, Angelique, é sempre mais seguro, e não vai demorar mais do que um minuto.

— Está bem.

Ela desejou boa noite a André e seguiu em frente, pelo corredor, a caminho de sua suíte. Ah Soh esperava no boudoir.

— Ah Soh — disse Babcott, polidamente, em cantonês —, só volte quando eu chamá-la, por favor.

— Pois não, honorável doutor. Obediente, ela se retirou.

— Eu não sabia que você falava chinês, George — comentou Angelique, enquanto ele sentava ao seu lado e começava a contar a pulsação.

— Falei cantonês. Os chineses não possuem uma única língua, Angelique, mas centenas de línguas diferentes, embora tenham apenas uma forma de escrever, que todos podem compreender. Curioso, não acha?

É muita estupidez me explicar o que já sei, pensou ela, impaciente, sentindo vontade de gritar com ele. Vamos, apresse-se! Como se eu não tivesse visitado Hong Kong, como se Malcolm e todos os outros não tivessem me contato isso uma centena de vezes... como se eu tivesse esquecido que você é a causa de todo o meu infortúnio.

— Aprendi quando trabalhava em Hong Kong — continuou Babcott, distraído. Ele encostou a mão na testa de Angelique, tornou a verificar o pulso, notou que o coração estava acelerado, havia um brilho de suor no rosto... nada com que se preocupar, levando em consideração a provação por que ela passara.

— Umas poucas palavras, aqui e ali. Passei dois anos no hospital geral... seria ótimo se tivéssemos uma instalação igual aqui.— Ele manteve as pontas dos dedos pousadas de leve no pulso de Angelique. — Os médicos chineses acreditam que há sete níveis de batimentos cardíacos ou pulsações. Alegam que podem senti-los, sondando mais e mais fundo. É seu principal método de diagnóstico.

— E o que está ouvindo em meus sete corações?

Angelique fez a pergunta num súbito impulso, apreciando o calor daquelas mãos curativas e desejando muito, apesar de seu ódio, poder confiar nele. Nunca sentira mãos assim, nem a sensação agradável que pareciam irradiar acalmando-a.

— Não ouço nada além de boa saúde — respondeu Babcott.

Ele especulou se haveria algum fundo de verdade na teoria das sete pulsações Em seus anos na Ásia, testemunhara percepções e curas extraordinárias por parte de médicos chineses... assim como uma abundância de bobagens supersticiosas. O mundo é estranho, mas as pessoas são ainda mais estranhas. Ele tornou a estudar Angelique. Seus olhos eram cinzas, penetrantes e gentis. Mas havia sombras no fundo, e ela percebeu-as.

— O que o perturba? — perguntou ela, com repentino medo de que Babcott tivesse diagnosticado sua verdadeira condição.

Ele hesitou, depois enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de papel de seda, que embrulhava sua cruz de ouro.

— Creio que isto é seu.

Numa violenta agitação, Angelique ficou olhando fixamente para a cruz, os lábios ressequidos, sem se mexer, embora a cabeça conjurasse uma negativa imediata, um dar de ombros indiferente, que foram substituídos no mesmo instante nauseante por:

— Eu... perdi uma assim... tem certeza que é minha? Onde a encontrou?

— Pendurada no pescoço do intruso.

— No pescoço dele? Mas... que coisa estranha!

Angelique ouviu sua voz, observou a si mesma, como se fosse outra pessoa, forçando-se a manter o controle, embora sentisse vontade de gritar bem alto, pois sabia que se encontrava de novo numa situação crítica... enquanto seu cérebro, frenético, procurava por uma explicação plausível.

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