— A verdade? Não sou uma pessoa séria? Sou Raiko das Três Carpas. Já não lhe disse tudo? É claro que pode ser perigoso e é claro que não é perigoso! Trata-se de um problema comum, que acontece durante todo o tempo, com todas as mulheres, e a cura raramente constitui um problema. Sua princesa é jovem e forte, e por isso deve ser fácil, sem problemas.
— Princesa? — André assumiu uma expressão brutal. — Sabe para quem é?
— Foi fácil adivinhar. Quantas mulheres existem na colônia, bastante especiais para que você as ajude? Não se preocupe, velho amigo. Segredo é segredo comigo.
Depois de uma pausa, ele perguntou:
— Qual é o problema possível?
— Dor de estômago e nenhum efeito, apenas muito enjoo. Neste caso, devemos tentar uma segunda vez, com um medicamento mais forte. Se isso não der certo, então há outro meio.
— Qual?
— Haverá tempo suficiente para falar disso mais tarde. — Confiante, Raiko afagou a seda. — Isto deve ser tudo o que é necessário.
28
— Você compreendeu tudo, Angelique?
— Claro, André — respondeu ela, os olhos fixados no embrulho de seda. Sua salvação estava ali, em cima da mesa de André Poncin. Falavam em voz baixa, apesar de manter a porta da sala fechada, como precaução contra ouvidos indesejáveis.
O relógio bateu dez horas da noite. Ele tornou a fitá-la, inquieto.
— A
— Isso não é possível, André. Não posso confiar em Ah Soh, nem em qualquer outra pessoa... não disse isso a ela?
— Disse, mas foi o que ela falou.
Da outra extremidade do corredor vinham os sons abafados de homens rindo, à mesa de jantar, da qual ela acabara de se retirar — Seratard, Vervene, Dmitri e uns poucos oficiais franceses — alegando cansaço e que queria se deitar cedo. Indo para sua suíte por acaso avistara André em sua sala, conforme a combinação anterior.
— Acho que nós... é melhor verificarmos se está tudo aí.
Ele não fez o menor movimento para abrir o embrulho. Em vez disso, limitou-se a ajeitar um canto, com evidente nervosismo.
— Se Ah Soh não estiver presente para ajudar, quem... quem vai dar um jeito... jogar fora os vidros e ervas... você não pode deixar tudo no quarto, e ainda precisará de alguém para fazer a limpeza.
Por um momento, o cérebro de Angelique ficou confuso, pois não considerara esse problema.
— Hum... não precisarei de ajuda, não haverá... nada além dos vidros e ervas... e toalhas. Não posso confiar em Ah Soh, é óbvio que não posso confiar nela, nem em qualquer outra pessoa, exceto você. Não precisarei de ajuda.
Sua ansiedade em iniciar o tratamento e acabar com aquilo para sempre prevalecia sobre todas as preocupações que a angustiavam.
— Não se preocupe. Trancarei a porta e... direi a ela que vou dormir até tarde e não quero que ninguém me incomode. Afinal, tudo deve terminar em poucas horas, até o amanhecer, não é mesmo?
— Se Deus quiser, é isso mesmo. Foi o que a
— É evidente que você não está pensando direito. Absolutamente não. Você é o único em quem posso confiar. Bata em minha porta bem cedo, deste jeito.
Angelique bateu na mesa três vezes, uma pausa, outra batida.
— Só abrirei a porta para você.
Impaciente, ela abriu o embrulho. Lá dentro havia dois vidros pequenos, tapados com rolha, e um maço de ervas.
— Tomo um vidro agora, e depois...
—
— Tenho alguns chocolates suíços que
— Claro. — André pegou um lenço para enxugar o suor das mãos, sua imaginação projetando as cenas mais tétricas. — Depois que a infusão estiver morna, talvez em meia hora, beba a metade... o gosto também não será agradável. Relaxe em seguida, espere, tente dormir.
— Haverá alguma reação? Sentirei qualquer coisa de imediato?
— Não. Eu já disse que não! A
Quanto mais ele falava a respeito, menos lhe agradava seu envolvimento. E se alguma coisa saísse errada?