O acesso ao caminho se encontrava aberto agora. Dentro em pouco, o mais veloz dos defensores alcançaria a entrada e, então, não haveria a menor possibilidade de que Saigo e Tora, quase ao final de sua corrida para a sebe, e devendo se desviar para o portão a qualquer instante, atingissem o seu objetivo. Por isso, os defensores diminuíram o ritmo, os arqueiros miraram sem pressa, confiantes na vitória. Para espanto de todos, no entanto, Saigo e Tora, em vez de correr ao longo da sebe, continuaram em linha reta e se lançaram contra a sebe, lado a lado.
O impulso fez com que passassem por ela, assim como a precisão do salto. Nos dias anteriores, Saigo descobrira que os galhos se entrelaçavam, mas os troncos eram separados por cerca de meio metro, e concluíra que um bom impulso, se efetuado no ponto correto, permitiria a passagem para o outro lado.
E foi o que conseguiram, embora os galhos os deixassem com o rosto e braços ensangüentados. Os dois se encontravam no ponto exato que Saigo planejara — o caminho sinuoso ao lado da varanda, que levava à casa de banho. Por um momento, não havia ninguém à vista, e depois vários servos e criadas apavoradas os contemplaram de uma porta, para desaparecer em seguida. Saigo seguiu à frente na corrida silenciosa pelo caminho, subiram os degraus, contornaram o canto da varanda. Dois homens ansiosos surgiram do nada, desarmados e despreparados, um deles o camareiro. Saigo golpeou os dois, o camareiro sofreu morte instantânea, o outro ficou ferido, e ele continuou a avançar. Tora acabou de liquidar o segundo homem, pulou sobre os corpos e foi em seu encalço.
Avançaram pela varanda, contornaram o canto, arremeteram pela tela leve de
Saigo soltou um berro de raiva. A banheira rasa e fumegante, alimentada por uma fonte de água quente, estava vazia, assim como as quatro caixas de vapor feitas de madeira e as mesas de massagem, exceto uma. Ele absorveu no mesmo instante cada detalhe da moça pequena e nua estendida ali, os olhos chocados, a boca entreaberta, dentes enegrecidos, os cabelos pretos torcidos numa toalha branca, mais toalhas por baixo do corpo, seios diminutos, mamilos de um marrom escuro, as curvas sedutoras, a pele dourada agora rósea do calor do banho, oleosa e fragrante... e a massagista cega, seminua, de pé ao seu lado, imóvel, a cabeça inclinada, escutando com total concentração.
Seria muito fácil matar a moça e todas as outras, mas suas ordens eram para não atacar a princesa, a qualquer custo. Mesmo assim, sua fúria por ter sido enganado — o momento que escolhera fora perfeito, as informações eram perfeitas, e o padrão do xógum nunca variava — fez com que sua cabeça parecesse que iria explodir. A fúria se transformou em desejo, e ele estremeceu, querendo aquela mulher, agora, depressa, brutalmente, de qualquer maneira, a esposa antes do marido, a morte para ambos, mas só depois de possuí-la.
Os lábios se afastaram dos dentes, e ele arremeteu pela distância que os separava. As criadas se dispersaram, uma desmaiou, a princesa ofegou, permaneceu imóvel, apavorada. Mas a obsessão pelo xógum prevaleceu, e Saigo passou por ela, continuou até a porta de
Não havia guardas naqueles cômodos. Ainda.
Nem qualquer oposição. Ainda.
Mais alguns cômodos para ultrapassar, portas, rostos, e depois ele viraria o último canto, a última varanda. A expectativa de Saigo aumentou ainda mais, pois o caminho era coberto e magnífico, jardins à direita e esquerda, sem ter mais de se preocupar com outros cômodos e guardas à espera, e ao final os aposentos do xógum, onde ele próprio deitara em segredo, com sua cortesã.
Todos os sentidos alertas para o perigo esperado, Tora poucos passos atrás, correndo na mesma velocidade, os sons de inimigos se aproximando. Passaram por outro cômodo. Só mais uma porta, o derradeiro perigo. Rostos na porta, um médico e um jovem tossindo, fitando-os chocados, depois ele virou a curva e iniciou a carga final, junto com Tora.
Os dois homens estacaram abruptamente. Seus corações pararam. Diante deles, um oficial e três samurai
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