— Sei onde é a casa segura em que ele esteve ontem à noite, onde talvez apareça também esta noite. — Uma pausa, e Yoshi acrescentou, a voz bem suave:— Há mais de cem shishi em Quioto. Eles já planejam um ataque em massa contra você.

Ogama sentiu um calafrio, sabendo que não existia nenhuma defesa eficaz contra um fanático assassino que não tinha medo de morrer.

— Quando?

— Deveria ser amanhã, ao crepúsculo... se o ataque contra o xógum fosse bem-sucedido. Depois que você morresse, com a ajuda de partidários entre suas tropas, eles tomariam os portões.

Ogama precisou recorrer a todo seu controle para não revelar a Yoshi que deveria ter uma reunião secreta com Takeda, no dia seguinte, ao crepúsculo, momento perfeito para um ataque de surpresa.

— E agora que foi um fracasso?

— A informação que recebi foi de que os líderes se reunirão esta noite para decidir. Agora, formalmente, você se encontra no topo da lista, logo depois do meu nome e de Nobusada.

— Por quê? — indagou Ogama, veemente. — Eu apoio o imperador, apoio a luta contra os gai-jin.

Yoshi absteve-se de sorrir, sabendo o que era melhor.

— Vamos juntar nossas forças esta noite. Sei onde fica o ponto de reunião, onde Katsumata e a maioria dos líderes devem se encontrar esta noite... há um toque de recolher do amanhecer ao anoitecer naquela parte da cidade.

Ogama exalou.

— E o preço?

— Primeiro, tenho mais uma informação que afeta bastante a nós dois.

Aumentando a apreensão de Ogama, Yoshi relatou os detalhes da reunião dos anciãos com Sir William e os outros ministros, falou de seu espião Misamoto, da ameaça de Sir William de efetuar em breve uma incursão armada a Quioto, assim que sua esquadra voltasse, e como a ameaça e o pagamento haviam sido protelados por um estratagema.

— A esquadra deles não passará por Shimonoseki... se eu assim ordenar.

— Podem fazer o percurso mais longo, contornando a ilha do Sul.

— Percurso mais longo, percurso mais curto, não faz diferença. Se desembarcarem em Osaca, ou nas proximidades, eu... ou nós vamos destruí-los.

— Na primeira vez. Com grandes perdas, mas conseguiremos, os gai-jin serão rechaçados. Há dois dias, no entanto, recebi um relatório secreto do departamento do Bakufu que lida com as informações da China. — Yoshi estendeu o pergaminho. — Leia você mesmo.

— O que diz? — perguntou Ogama, bruscamente.

— Que a esquadra de Iocoama, enviada para punir o afundamento de um único navio britânico, devastou vinte léguas da costa da China, ao norte de Xangai, incendiando todas as aldeias, afundando todas as embarcações.

Ogama cuspiu.

— Piratas. Ninhos de piratas.

Ele sabia bastante sobre a região. No passado, fora uma política histórica embora secreta de Choshu — e também de Satsuma — enviar atacantes à costa da China para saquear implacavelmente, de Xangai, para o sul, além de Hong Kong, até o estreito de Taiwan. Os chineses chamavam-nos de wako, piratas, odiando-os e temendo-os tanto que por séculos os imperadores da China haviam proibido que qualquer japonês desembarcasse em suas praias; todo o comércio entre as duas terras era conduzido apenas por não-japoneses.

— Piratas, sim, mas aquela escória nada tem de covarde. Não faz muito tempo, um exército desses mesmos gai-jin humilhou toda a China, pela segunda vez, incendiou o palácio de verão do imperador e Pequim a seu capricho. Suas esquadras e exércitos possuem tremendo poder.

— Estamos no Nipão, não na China. — Ogama deu de ombros. Não se sentia disposto a revelar seus planos para a defesa de Choshu. E pensou: minhas costas são escarpadas, infestadas de rochedos, difíceis de invadir, bastante defensáveis, muito em breve se tornarão inexpugnáveis, assim que todas as fortificações ficassem prontas e seus guerreiros ocupassem seus postos. — E nós não somos chineses.

— Minha opinião é de que precisamos de paz entre todos os daimios para ganhar tempo, manipular os gai-jin, descobrir tudo sobre seus canhões secretos, armas secretas, navios secretos, saber como o povo de uma ilha tão pequena e repulsiva, menor que a nossa terra, tornou-se o mais rico do mundo e domina a maior parte.

— Mentiras, mentiras espalhadas para assustar os covardes aqui.

Yoshi sacudiu a cabeça.

— Não acredito nisso. Primeiro, devemos aprender, depois poderemos destruí-los, o que é impossível agora.

— Não é, não. Esta é a terra dos deuses. Tenho uma fábrica de canhões em Choshu, em breve haverá outras. Satsuma tem três pequenos navios a vapor, o início de um estaleiro; logo terá outros. — O rosto de Ogama se contraiu. — Podemos destruir Iocoama e essa esquadra, e estaremos preparados quando os outros voltarem.

Yoshi ocultou sua surpresa pela veemência e intensidade do ódio, secretamente exultante por ter descoberto outra arma que podia usar.

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