— Claro. — Yoshi puxou a trava de segurança. — É um fuzil americano... o último modelo de carregar pela culatra. Receberei cinco mil em breve.

Ele exibiu um sorriso fugaz, recordando que se apropriara da encomenda de Ogama, antes de acrescentar:

— Meu ancestral foi sábio ao proibir todas as armas de fogo... qualquer pessoa pode usar uma dessas para matar, de perto ou a distância, daimio, mercador, assaltante, ronin, camponês, mulher, criança. Meu ancestral foi muito sábio. É uma pena que não possamos fazer a mesma coisa, mas os gai-jin tornaram isso impossível.

O fuzil pareceu estranho para Ogama, mais pesado do que uma espada, oleado e mortífero, e isso aumentou o excitamento do ataque, as mortes, os gritos, a batalha, saber que Katsumata se encontrava de fato lá dentro, como seus espiões haviam informado, e que muito em breve a cabeça de seu odiado inimigo estaria em exposição. Tudo se somava para deixá-lo com uma incômoda náusea.

Era bom matar assim, sem correr qualquer perigo pessoal, pensou ele, os dedos acariciando o cano, mas Yoshi tem razão, mais uma vez. Nas mãos erradas... todas as outras mãos seriam erradas. Cinco mil? Isso tornaria muito difícil um combate. Encomendei apenas duzentos e cinqüenta... de onde ele tira o dinheiro, já que suas terras se acham tão endividadas quanto as minhas... ah, sim, esqueci, negociando concessões de mineração. Muito esperto. Farei a mesma coisa. Esta noite ele trouxe quarenta homens. Por que quarenta? Para me lembrar que concordei com uma guarnição de quarenta em cada portão? Quarenta homens com fuzis poderiam dizimar meus duzentos, a menos que estivessem igualmente armados.

— Tem mais fuzis aqui? — indagou ele.

Yoshi decidiu ser franco.

— Não, por enquanto.

Pensativo, Ogama devolveu o fuzil e concentrou sua atenção nas cabanas. Os sons da batalha diminuíam, o ruído dos incêndios aumentava, mais e mais habitantes tentavam apagá-los, em fileiras, passando baldes com água. Os telhados e as paredes das cabanas principais ardiam agora. Houve outro combate desesperado, corpo a corpo, enquanto mais shishi deixavam as cabanas em chamas, muitos já feridos.

— Katsumata não está entre eles — disse Yoshi.

— Talvez ele tenha tentado escapar pelos fundos.

Ali, fora das vistas dos dois, já havia cinco shishi mortos no chão de terra, junto com oito samurais de Ogama, e seis feridos. Outra batalha entre três shishi e dez samurais de Ogama se aproximava de sua conclusão inevitável. Um brado final de “Sonno-joi!” e os três homens correram para a morte. Trinta samurais de Choshu aguardavam a próxima tentativa de fuga. Saía fumaça pelas aberturas nas paredes de shoji. Um cheiro de carne queimada impregnava o ar. Nenhum movimento no interior. Um oficial gesticulou para um samurai.

— Relate ao capitão o que aconteceu aqui e pergunte se devemos esperar ou entrar.

O homem saiu correndo.

A escaramuça terminou, como todas as outras. Os três shishi morreram bravamente. Havia mais doze mortos, dezessete samurais de Choshu e um dos homens de Yoshi. Quatorze feridos, três shishi impotentes, desarmados, ainda vivos. O capitão ouviu o relatório.

— Diga ao oficial para esperar e matar quem tentar sair. — Ele chamou um grupo mantido em reserva. — Esvaziem as cabanas enquanto ainda há tempo. Matem qualquer um que não se render, menos os feridos.

No mesmo instante, os homens encaminharam-se para a porta. Lá dentro, soaram gritos e depois houve silêncio. Um dos homens saiu, o sangue escorrendo de um talho profundo na coxa.

— Meia dúzia de feridos, muitos cadáveres.

— Traga-os para fora antes que o telhado desabe.

Os cadáveres e os feridos foram alinhados diante de Yoshi e Ogama, com os representantes do Bakufu logo atrás. As tochas projetavam estranhas sombras. Vinte e nove mortos. Onze feridos impotentes. Katsumata não se encontrava entre eles.

— Onde ele está? — berrou Ogama para seu capitão, furioso.

Yoshi também se sentia irritado, sem saber exatamente quantos inimigos havia lá dentro ao começar a batalha.

— Sire, juro que ele estava lá dentro antes de começar e não saiu — respondeu o capitão, caindo de joelhos.

Ogama aproximou-se do mais próximo shishi ferido.

— Onde ele está?

O homem lançou-lhe um olhar furioso, através da dor.

— Quem?

— Katsumata! Katsumata!

— Quem? Não conheço... nenhum Katsumata. Sonno-joi, traidor! Mate-me, acabe logo com isso!

— Daqui a pouco — disse Ogama, através dos dentes semicerrados. Todos os feridos foram interrogados. Ogama examinou cada rosto — Katsumata não estava ali. Nem Takeda.

— Matem todos.

— Deixe-os morrer honrosamente, como samurais — sugeriu Yoshi.

— Está bem.

Ambos se viraram para ver o desabamento do telhado e das paredes da cabana, numa chuva de fagulhas, arrastando as cabanas adjacentes. A chuva fina recomeçara.

— Capitão! Apague o incêndio. Deve haver um porão, um esconderijo, se esse monte de bosta não é um tolo incompetente.

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