O primeiro momento em que os dois vigias perceberam o perigo foi quando uma das choupanas, quase no final da viela, lamacenta da chuva, irrompeu em chamas, aos gritos abafados de alarme dos ocupantes e vizinhos próximos. No mesmo instante, esses homens e mulheres — todos infiltrados em segredo pelo Bakufu —, saíram para a viela, num pânico simulado, a manobra diversionária ajudando a encobrir a aproximação furtiva da força atacante. Quando as sentinelas foram investigar, flechas zumbiram pela noite e as liquidaram. Um dos homens ainda gritou em advertência antes de morrer.

A força principal surgiu da noite para cercar toda aquela área de habitações miseráveis. A maioria dos homens era de Ogama, a seu pedido. Yoshi concordara, dizendo que enviaria uma tropa simbólica, de homens escolhidos a dedo, sob o comando de Akeda.

Num instante, muitos dos atacantes acenderam tochas, que iluminaram parcialmente a cabana que era o alvo principal, por trás e pela frente. Uma saraivada de flechas penetrou por todas as aberturas e pontos fracos. Depois, num movimento inesperado, os quatro homens de Yoshi armados com fuzis ocuparam suas posições, dois atrás do conjunto de cabanas, dois na frente, e dispararam várias rajadas, através das paredes de papel.

Por um momento, houve um silêncio atordoado — samurais, shishi e todos os moradores igualmente chocados —, pois o som de tiros em rápida sucessão era algo sem precedentes. O silêncio logo foi rompido, enquanto todos, menos os atacantes, dispersavam-se em busca de cobertura, e os feridos lá dentro soltavam gritos de dor. Uma cabana ao lado da primeira que se incendiara também pegou fogo, as chamas se espalharam depressa para a casa ao lado, para outra e mais outra, até que os dois lados da extremidade da viela se transformaram num inferno, com muitas famílias acuadas.

O capitão de Ogama que liderava o ataque não deu a menor atenção a esse perigo, que ameaçava apenas os habitantes. Ordenou a primeira onda de ataque, ignorando o conselho de Yoshi para atear fogo às cabanas, e deixar que seus homens com rifles liquidassem os shishi, à medida que saíssem em busca de cobertura. Quatro atacantes de Ogama tombaram sob uma impetuosa incursão de shishi, pela porta da frente e janelas laterais. Começou uma luta generalizada, tanto ali como nos fundos, enquanto outra incursão furiosa era contida, homens se debatendo, estorvados pelo espaço restrito, a lama e a semi-escuridão. Dois homens ultrapassaram o cerco, só para serem retalhados por outros, esperando em emboscada. Outra rajada contra a cabana foi seguida por mais uma tentativa de fuga, por parte de um grupo frenético de shishi, numa missão impossível, já que outro círculo de samurais os aguardava mais além, e depois um terceiro. A fumaça dos incêndios começou a atrapalhar os atacantes e atacados.

Uma ordem de Akeda. Seus homens com tochas aproximaram-se correndo das cabanas e as arremessaram nos telhados e através das paredes de shoji, recuando apressados, em seguida, para oferecer uma área desimpedida aos seus companheiros com fuzis. Mais disparos, mais mortes, enquanto outro bando de shishi saía correndo para se juntar ao confuso combate. O cheiro de fumaça, lixo, sangue, fogo, carne queimada e morte impregnava a noite úmida. A chuva virou uma garoa.

Protegidos por guardas pessoais, Ogama e Yoshi observavam de um posto de comando, longe do fogo e do combate. Ambos usavam armaduras e espadas; Yoshi tinha seu fuzil pendurado no ombro. Havia alguns representantes do Bakufu ao lado deles. Na confusão furiosa, ficaram surpresos ao avistar um shishi romper o círculo de atacantes, correr pela viela e se esgueirar por um caminho transversal, evitando os samurais de Choshu.

— Aquele é Katsumata? — gritou Ogama.

Suas palavras foram abafadas no momento em que Yoshi, sem a menor hesitação, mirou o fuzil, atirou, tornou a carregar, disparou de novo. O homem caiu, gritando. Ogama e todos ao redor recuaram, pois não esperavam que Yoshi se envolvesse pessoalmente. Sem pressa, Yoshi apontou mais uma vez para o homem, que se contorcia na lama, impotente. Abala arremessou o corpo para trás. Um uivo final e torturado e o homem ficou inerte.

— Não é Katsumata — murmurou Yoshi, desapontado.

Ogama soltou uma imprecação, pois sua visão noturna não era muito boa. Desviou os olhos do corpo para fixá-los no fuzil, folgado nas mãos de Yoshi, reprimindo um tremor.

— Usa isso muito bem.

— É fácil aprender, Ogama-dono, bastante fácil. — Com uma despreocupação cuidadosa, Yoshi pôs outra bala na culatra, convencido de que aquele era o primeiro fuzil que Ogama via. Trouxera os homens com os fuzis deliberadamente, para impressioná-lo, mantê-lo hesitante, fazer com que se tomasse mais cauteloso em qualquer tentativa de assassinato. — Matar assim é repulsivo, covarde, desonroso.

— É mesmo. Posso examinar a arma, por favor?

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