A ligação contara com a indulgência dos círculos diplomáticos e fora bem documentada pela Cheka, a polícia secreta do czar, e por isso parte do dossiê de Sir William, que Zergeyev lera, como não podia deixar de ser. Uma estupidez a moça se matar, pensou ele; nunca tivera certeza se William tomara conhecimento do suicídio, ocorrido pouco depois de seu retorno a Londres. Isso nunca fora parte do plano, nem era seu dever lhe contar. Por que ela fizera isso? Por causa de um homem tão rústico? Não era possível, com toda certeza; mas qualquer que fosse o motivo, era uma pena, pois sua utilidade, para nós dois, teria se prolongado por muitos mais anos.

— Talvez o seu Ministério do Exterior o envie de novo para lá... e há outras Vertinskyas.

— Não há muita possibilidade de que isso venha a acontecer, infelizmente.

— Vamos torcer. A outra esperança, mon ami, é que seu lorde Palmerston veja a lógica que devemos ficar com as Kurilas. Como os Dardanelos... os dois lugares têm de ser russos.

Sir William percebeu o brilho nos olhos escuros.

— Também não há muita possibilidade.

O apito do meio tempo soou, o placar ainda era de dois a dois, com recriminações, elogios e promessas de terríveis punições para os perdedores. No mesmo instante, Marlowe aproximou-se de Jamie.

— Acha que o Sr. Struan e... hum... e miss Angelique gostariam de se juntar a mim a bordo do Pearl para o almoço e um dia de passeio? — Uma pausa, e ele acrescentou, como se fosse um pensamento repentino: — Preciso fazer algumas experiências, assim que a esquadra voltar, e seria um prazer tê-los a bordo.

— Creio que gostariam. Por que não pergunta a ele?

— Quando seria o melhor momento?

— Qualquer dia por volta das onze horas... ou pouco antes do jantar.

— Muito obrigado. — Marlowe estava radiante, mas logo percebeu a palidez de Jamie. — Você está bem?

— Estou, sim, obrigado.

Jamie forçou um sorriso e afastou-se. Estivera considerando seu futuro. Poucas semanas antes, escrevera para Maureen Ross, sua noiva, na Escócia, dizendo que não esperasse mais por ele — quase três anos desde que a vira pela última vez, cinco anos de noivado —, que sentia muito, sabia que fora abominável mantê-la à espera por tanto tempo, mas finalmente se convencera, de forma absoluta, que o Oriente não era lugar para uma dama, e também que a Ásia não era seu lar, nem Iocoama, Hong Kong, Xangai, ou qualquer outro lugar, mas vivia aqui, e não tinha a menor intenção de ir embora. Sabia que fora injusto com ela, mas o noivado estava encerrado. Aquela seria a última carta.

Por dias sentira-se nauseado, antes de escrever, como também depois de escrever, e depois da partida do navio de correspondência. Esse capítulo estava concluído. E agora o capítulo Struan, que parecia tão promissor, com uma promoção inevitável no próximo ano, também vai terminar. Ah, Deus Todo-Poderoso! Não há a menor possibilidade de Malcolm voltar atrás e assim só me restam mais umas poucas semanas para decidir o que fazer... e não posso esquecer que Norbert voltará antes disso. E então? Será que vão mesmo travar um duelo? Farão o que bem quiserem, mas ainda assim você tem de proteger Malcolm, da melhor forma que puder.

E, depois, um novo emprego. Onde? Eu gostaria de ficar aqui, pois tenho Nemi, uma vida boa, com um futuro em aberto para construir. Hong Kong e Xangai já estão em grande parte construídas, com uma forte estrutura instalada — grande se você é um Struan, um Brock, um Cooper, e assim por diante, mas difícil de romper em caso contrário. A primeira opção seria aqui. Com quem? Com Dmitri, na Cooper-Tillman?

Poderiam me aproveitar? Claro, mas não como o homem principal. Na Brock? Claro, também, até pensei nisso nas profundezas da injustiça de Tess Struan, mas não serei o primeiro com Norbert aqui... mas se Malcolm o matasse, que golpe seria, que vingança! Lunkchurch? Com toda certeza, mas quem poderia querer trabalhar para aquele patife grosseiro? Que tal trabalhar por conta própria? Seria o melhor, todavia também o mais arriscado, e quem o patrocinaria? Precisaria de dinheiro. Tenho algum guardado, mas não o suficiente. Precisaria de muito para começar, muito para cumprir os prazos de espera, para cartas de crédito e seguros, tempo para arrumar agentes em Londres, San Francisco, Hong Kong, Xangai e toda a Ásia, Paris... e Londres, São Petersburgo. Não posso esquecer que os russos são grandes compradores de chá, negociarão zibelinas e outras peles, que proporcionam grandes lucros, e ainda têm contatos no Alasca russo e postos comerciais em toda a costa oeste sul-americana. Uma boa idéia, mas arriscada, um prazo prolongado entre a compra, a venda e o lucro, muitos riscos para os navios, as perdas no mar e para a pirataria...

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