Aumentando seus pesares, o último navio de correspondência só trouxera mais notícias ruins e prognósticos sombrios do Ministério do Exterior, alertando que a falta de apoio financeiro no Parlamento acarretaria grandes cortes no pessoal diplomático e “embora os cofres do império estejam abarrotados, não haverá aumentos de salário este ano. A guerra americana promete ser a mais brutal da história, por causa da invenção recente da granada, cartucho de bronze, fuzil de carregar pela culatra, metralhadora e canhão de carregar pela culatra; com a derrota das forças da União em Shiloh e na segunda batalha de Bull Run, prevê-se, no momento, que a guerra será vencida pelos Confederados, a maioria dos analistas na City já concluiu que o presidente Lincoln é fraco e ineficaz, mas devo ressaltar, meu caro Willie, que a política de sua majestade continua a mesma: apoiar os dois lados, manter a cabeça abaixada e permanecer fora desse conflito...”

As notícias européias também eram ruins: tropas de cossacos russos haviam massacrado milhares de poloneses em Varsóvia, que realizavam uma manifestação contra o domínio russo; o príncipe Von Bismarck fora designado ministro-presidente da Prússia e corriam rumores de que se preparava para a guerra contra a França expansionista; a Áustria-Hungria e a Rússia pareciam se encontrar à beira da guerra outra vez; era inevitável a ocorrência de mais combates nos Bálcãs...

E assim por diante, ad nauseam, pensou Sir William, franzindo o rosto. Nada muda! E não posso acreditar que o Bakufu fará tudo o que prometeu, o que significa que terei de impor nossa presença aqui. Ensinarei aos japoneses que uma promessa é uma promessa, se feita à soberania britânica, e lembrar a mesma coisa a Zergeyev, Seratard e aos outros.

Bombardear Iedo seria a solução mais simples e mais fácil, o que os tornaria submissos num instante. Mas tenho o problema de Ketterer... talvez sua incursão pelos livros de história o tenha mudado. Que esperança...

— Um rublo por seus pensamentos, Sir William — disse o conde Zergeyev, com um sorriso, oferecendo um frasco de prata com o brasão da família gravado em ouro. — Vodca é bom para pensamentos.

— Obrigado.

Sir William tomou um gole, sentiu o fogo descer pela goela, lembrando-o de todos os momentos maravilhosos na embaixada em São Petersburgo, quando ainda se encontrava na casa dos vinte anos, um centro do poder, não um posto de fronteira como Iocoama, bebendo e se divertindo, bailes, balés, dachas, vida noturna, luxo — para os poucos privilegiados —, excitamento e intriga, jantares maravilhosos e Vertinskya, nunca longe de seus pensamentos.

Por cinco de seus sete anos ali, ela fora sua amante, a filha mais nova de um ourives muito apreciado na corte, uma artista como o pai, que nunca se incomodara com a ligação, a mãe russa do próprio William gostando da moça e querendo o casamento dos dois.

— Sinto muito, mamãe, mas não há a menor possibilidade, por mais que eu deseje. O ministério nunca aprovaria. Terei de casar com Daphne, a filha de Sir William. Sinto muito...

Ele tornou a beber, a angústia pela separação ainda persistente.

— Estava pensando em Vertinskya — disse ele, em russo.

— Ah, sim! As moças da Mãe Rússia são muito especiais — comentou Zergeyev, compadecido, na mesma língua. — O amor delas, se um homem recebe essa bênção, é eterno, duas vezes eterno.

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