Antes de morrer, seu pai designou sua mãe para tai-pan. Foi feito da maneira correta, com todos os detalhes obrigatórios. Eu testemunhei. Ela é tai-pan, legalmente, e tem o poder sobre a Casa Nobre. É verdade que seu pai e sua mãe esperavam que o cargo fosse transmitido logo para você, mas ela também está certa ao dizer que uma das obrigações do tai-pan é atestar diante de Deus a integridade de seu sucessor, e também é verdade que a Casa Nobre só é dirigida por quem o tai-pan, seja homem ou mulher, decidir escolher, cabendo-lhe também determinar o momento da sucessão. Meu único conselho é o seguinte: seja sensato, engula seu orgulho, volte imediatamente, submeta-se, aceite um período de “experiência”, volte a ser um filho obediente, honrando seus ancestrais, para o bem da Casa. Obedeça à tai-pan. Seja chinês.

Malcolm Struan ficou olhando fixamente para a carta, seu futuro em ruínas, tudo mudado. Então ela é tai-pan! A mãe! Se tio Gordon assim o diz, é verdade! Ela me privou do meu direito hereditário, a mãe fez isso comigo!

Mas não é o que ela realmente queria, ao longo dos anos? Não foi ela quem sempre adulou, suplicou, conspirou, fez tudo o que era necessário, para dominar o pai, a mim, a todos nós? Suas irritantes orações familiares todos os dias, a igreja duas vezes aos domingos, nós a seguindo, quando uma única vez é mais do que suficiente. E a bebida? “A embriaguez é uma abominação”, citações da Bíblia o dia inteiro, ao ponto da insanidade, sem qualquer diversão em nossas vidas, a quaresma respeitada ao pé da letra, jejum, censuras à exuberância de Dirk Struan, que Deus o amaldiçoe, sempre dizendo como era terrível ter morrido tão jovem... nunca dizendo que ele morreu no tufão com a amante chinesa nos braços, um fato que era e ainda é o escândalo da Ásia... sempre com sermões sobre os males da carne, a fraqueza do pai, a morte de minha irmã e dos gêmeos...

Subitamente, ele se empertigou na cadeira. Insanidade? É isso mesmo! Eu poderia interná-la num hospício? Talvez ela seja insana. Será que tio Gordon me ajudaria... Pare! Eu é que estou louco. Eu que...

— Malcolm, está na hora do almoço.

Ele levantou os olhos e se descobriu a falar com Angelique, dizendo como ela estava bonita, mas será que se importaria de ir sozinha, pois ainda havia umas poucas coisas importantes a serem decididas, cartas a escrever — não, nada que a afetasse, apenas problemas de negócios —, durante todo tempo recordando o “volte sozinho” e “submeta-se, ela é tai-pan” martelando em sua mente.

— Por favor, Angelique.

— Claro, se é isso o que você quer. Mas tem certeza de que se sente bem, meu amor? Não está com febre, não é?

Malcolm permitiu que ela pusesse a mão em sua testa, puxou-a para seu colo, beijou-a, Angelique retribuiu, soltou uma risada alegre, ajeitou o corpete, disse que voltaria depois da aula de piano, que ele não precisava se preocupar, e deveria usar um traje de noite para o retrato, garanto que vai ficar impressionado com o meu novo vestido de baile.

E depois ele voltou a ficar sozinho, com seus pensamentos, as mesmas palavras remoendo no cérebro: “volte sozinho... Ela é tai-pan.” Como a mãe ousa cancelar a encomenda dos fuzis... o que ela sabe deste mercado?

Tai-pan legalmente. Portanto, ela é quem manda. Com toda certeza, até eu completar vinte e um anos, e mesmo depois. Até que ela não seja mais. Até...

Ah, essa é a solução? Foi o que tio Gordon quis dizer ao escrever “seja chinês”? Ser chinês como? Apenas ser paciente? Como um chinês enfrentaria minha situação?

E pouco antes de mergulhar em seu sono especial, Malcolm sorriu.

Era sábado, uma tarde agradável, e uma partida de futebol fora marcada. A maior parte da colônia foi assistir, com as brigas e histeria habituais, um delírio quando um lado ou outro marcava um gol, exército contra marinha, cinqüenta homens de cada lado. O placar era exército 2 marinha 1, e o primeiro tempo ainda não terminara. As substituições e brigas eram permitidas, quase tudo era permitido, e o único objetivo era forçar a bola a passar entre as estacas do adversário.

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