Ele dissera a Akimoto que Tyrer prometera pedir a um capitão amigo permissão para levar os dois a bordo, explicando que Akimoto era filho de um rico construtor de barcos de Choshu, viria visitá-lo por alguns dias e poderia ser um amigo valioso no futuro.

Pela janela aberta, Hiraga ouvia os gritos da multidão no campo em que se jogava a partida de futebol. Suspirou e pegou o dicionário escrito a mão de Babcott Era o primeiro dicionário que ele já vira e o primeiro inglês-japonês e japonês-inglês que já existira, Babcott o fizera com listas de palavras e frases recolhidas por ele próprio, por mercadores e sacerdotes, tanto católicos quanto protestantes, e com outras traduzidas de equivalentes holandês-japonês. No momento, o dicionário ainda era pequeno. Mas aumentava a cada dia, e o fascinava.

Pelo que se dizia, cerca de dois séculos antes um padre jesuíta chamado Tsukku-san escrevera uma espécie de dicionário português-japonês. Antes disso, jamais existira um dicionário japonês de qualquer tipo. Com o passar do tempo, haviam aparecido uns poucos dicionários holandês-japonês, guardados com o maior cuidado.

— Não precisa trancar isto, Nakama — declarara Babcott no dia anterior, deixando-o espantado. — Esse não é o estilo britânico. Temos de espalhar as informações, deixar que todos aprendam; quanto mais pessoas instruídas, melhor será para o país. — Ele sorrira, antes de acrescentar: — É claro que nem todos concordam comigo. Seja como for, na próxima semana, com a ajuda de nossos prelos...

— Prelos, por favor?

Babcott explicara:

— Muito em breve começaremos a imprimir coisas, e, se prometer escrever uma história de Choshu, prometo que darei uma cópia do meu dicionário só para você.

Uma semana antes, impressionado, Hiraga mostrara a Akimoto um exemplar do Yokohama Guardian.

— São as notícias do dia, do mundo inteiro, e eles preparam uma versão nova todos os dias, com quantas cópias quiserem... milhares, se for necessário...

— Impossível! — protestara Akimoto. — Nossos melhores blocos de impressão não podem...

— Vi eles fazerem, Akimoto. É tudo com máquinas. Arrumam as palavras no que eles chamam de tipos, em linhas, lêem da esquerda para a direita, o oposto de nós, que lemos da direita para a esquerda e para baixo nossas colunas de caracteres, coluna por coluna. É incrível. Vi o homem da máquina fazer palavras com símbolos individuais, chamados “letras romanas”... dizem que todas as palavras em qualquer língua podem ser escritas com apenas vinte e seis desses símbolos e...

— Impossível!

— Escute o resto. Cada letra ou símbolo sempre tem o mesmo som; assim, outra pessoa pode ler as letras individuais ou formar palavras com elas. Para fazer este “papel de notícias”, o impressor usa combinações de pequenas peças de ferro com o símbolo cortado na extremidade... desculpe, não é bem ferro, mas uma espécie de ferro que eles chamam de “aço”. O homem pôs as letras numa caixa, besuntada com tinta, passou o papel por cima, e apareceu uma nova página impressa, que continha uma coisa que eu escrevera um momento antes. E Taira leu exatamente! Um milagre!

— Mas como podemos fazer isso com a nossa língua? Cada palavra é um caractere especial, com até cinco ou sete maneiras diferentes de dizer, nossa escrita é diferente e...

— O doutor gigante escuta quando eu digo uma palavra japonesa, escreve em suas letras romanas, e depois Taira diz a palavra, só lendo os símbolos.

Fora preciso mais explicação de Hiraga para convencer Akimoto. Ao final, ele comentara, exausto:

— Tantas coisas novas, idéias novas, muito difícil para mim compreender, ainda mais explicar. Ori era um tolo por não querer aprender.

— Ainda bem, para nós, que ele morreu, foi enterrado e esquecido pelos gai-jin. Durante dias, pensei que estávamos perdidos.

— Eu também.

Hiraga encontrou a palavra em inglês que procurava, “reparações”. A tradução japonesa era a seguinte: “dinheiro a ser pago por um crime admitido”. Isso o deixou perplexo. O Bakufu não cometera nenhum crime. Dois Satsumas, Ori e Shorin, haviam apenas matado um gai-jin, agora ambos estavam mortos, dois por um gai-jin, nada mais justo. Por que deveriam exigir “reparações”, ele pronunciou a palavra em voz alta, o som mais próximo de que sua língua era capaz.

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