— É mesmo — murmurou Hiraga, através dos dentes semicerrados.

O saquê chegou num instante, a criada serviu depressa e se retirou logo. Hiraga bebeu, e sentiu-se satisfeito por isso, embora simulasse o contrário, aceitou mais, tomou tudo.

— O que há com Taira? E melhor explicar direito.

O shoya respirou fundo e se lançou ao que sabia que seria a maior oportunidade de sua vida, com várias implicações para o zaibatsu, e todas as suas futuras gerações.

— Desde que chegou aqui, Otami-sama, tem especulado como e por que os gai-jin ingleses dominam grande parte do mundo além de nossas praias, embora sejam de uma pequena ilha-nação, até menor do que a nossa, pelo que ouvi dizer...

Ele fez uma pausa, divertido com a súbita impassibilidade no rosto de Hiraga.

— Ah, sinto muito, mas já devia saber que ouviram as conversas com seu amigo, agora morto, e com seu primo. Mas posso lhe assegurar que suas confidências estão seguras, seus objetivos e os dos shishi são os mesmos da Gyokoyama. Pode ser importante para você... Acreditamos que conhecemos um importante segredo que você procura.

— É mesmo?

— É, sim. Estamos convencidos de que o grande segredo deles é emprestar dinheiro, os serviços de financia...

Sua voz foi abafada quando Hiraga teve um paroxismo de riso desdenhoso. A gata foi arrancada de sua tranqüilidade, suas garras passaram pelo quimono do shoya, foram se cravar na carne. Cauteloso, ele removeu as garras, começou a acalmá-la, controlando sua fúria, ao mesmo tempo em que desejava incutir um pouco de juízo naquele jovem insolente. Mas isso acabaria lhe custando a vida... pois teria depois de enfrentar Akimoto e outros shishi. Obstinado, ele esperou, sabendo que a missão de que fora incumbido por seus superiores era impregnada de perigos: “Sonde esse jovem, descubra quais são seus verdadeiros objetivos, seus verdadeiros pensamentos, desejos e fidelidades, use-o, pois ele pode ser um instrumento perfeito...

— Você está louco. É tudo conseqüência de suas máquinas, canhões, riquezas e navios.

— Exatamente. Se tivéssemos essas coisas, Hiraga-sama, poderíamos... — No instante em que usou o nome verdadeiro, o que fora deliberado, ele viu todo o riso desaparecer e os olhos entrarem em foco, ameaçadores. — Meus superiores disseram para usar seu nome apenas uma vez, só para que soubesse que merecemos confiança.

— Como eles sabem?

— Mencionou a conta de Shinsaku Otami, o nome em código de seu honrado pai, Toyo Hiraga. Como não podia deixar de ser, isso está escrito nos livros de registros mais confidenciais.

Hiraga foi dominado por uma raiva intensa. Nunca lhe ocorrera que os emprestadores de dinheiro pudessem ter livros confidenciais; como todos, dos mais baixos aos mais altos, precisavam de seus serviços de vez em quando, eles teriam acesso aos conhecimentos mais sigilosos, sempre registrados, sempre perigosos, que podiam usar como instrumento de pressão para obterem novas informações, a que não deveriam ter acesso... como poderiam descobrir alguma coisa sobre os nossos shishi, a não ser por meios escusos... e como esse cão ousa usar isso contra mim? Com toda razão, os mercadores e emprestadores de dinheiro são desprezados, não merecem a menor confiança e devem ser exterminados. Quando sonno-joi se tornar um fato concreto, nosso primeiro pedido ao imperador será uma ordem para a destruição de todos eles.

— Cale-se!

O shoya estava preparado, consciente de que a fronteira entre um súbito ataque desvairado e a sanidade se encontrava esticada ao ponto de rompimento, que nunca se podia confiar num shishi e, por isso, mantivera a mão no bolso na manga. Falou numa voz suave, embora fosse evidente a ameaça ou promessa:

— Meus superiores mandaram lhe dizer que seus segredos e os de seu pai, honrados clientes, embora registrados, são confidenciais, absolutamente confidenciais... entre nós.

Hiraga suspirou, inclinou-se para trás, a ameaça purificando sua cabeça da raiva inútil, e analisou tudo o que o shoya lhe dissera, a ameaça — ou promessa — e todo o resto, o perigo que o próprio homem representava, a Gyokoyama e similares, avaliou sua possível decisão, a herança e o treinamento em jogo.

As opções eram simples: matar ou não matar, escutar ou não escutar. Quando ele era pequeno, a mãe lhe dissera:

— Tome cuidado, meu filho, e jamais se esqueça de uma coisa: matar é fácil, desmatar é impossível.

Por um momento, a mente se fixou na mãe, sempre sábia, sempre o acolhendo com a maior alegria, sempre com os braços estendidos... mesmo quando passara a sentir dores nas articulações, que a deixaram mais e mais entrevada a cada ano.

— Muito bem, shoya, vou escutar, só uma vez.

Foi a vez do shoya suspirar, uma profunda ravina transposta. Ele serviu mais saquê.

— A sonno-joi e aos shishi!

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