Os dois beberam. Ele tornou a encher os copos.
— Por favor, Otami-sama, seja paciente comigo, mas estamos convencidos de que podemos ter tudo o que os gai-jin possuem. Como sabe, no Nipão o arroz é uma moeda, os mercadores de arroz são banqueiros, emprestam dinheiro a plantadores contra futuras colheitas, para comprar sementes, e assim por diante, sem o dinheiro não haveria colheitas na maioria dos anos e, em conseqüência, também não haveria impostos a coletar; eles emprestam aos samurais e daimios para sua subsistência, contra pagamentos futuros, estipêndios futuros, tributos futuros, e sem esse dinheiro a vida seria difícil. O dinheiro torna qualquer modo de vida possível. O dinheiro, sob a forma de ouro, prata, arroz ou seda, até mesmo esterco, o dinheiro é a roda da vida, faz as engrenagens funcionarem e...
— Vamos direto à questão. O segredo.
— Ah, sinto muito. A questão é que de alguma forma, por mais incrível que possa parecer, os emprestadores de dinheiro gai-jin, os banqueiros... é uma profissão honrada no mundo deles... encontraram um meio de financiar todas as suas indústrias, máquinas, navios, canhões, prédios, exércitos, tudo e qualquer coisa, com lucro, sem usar ouro de verdade. Não poderia haver tamanha quantidade de ouro no mundo inteiro. De algum modo, eles podem efetuar vastos empréstimos usando a promessa de ouro, ou fingir que é ouro, e só isso os torna fortes, pois tudo indica que fazem isso sem aviltar sua moeda, como acontece com os daimios.
— Fingir que é ouro? Mas do que está falando? Seja mais explícito!
O shoya removeu uma gota de suor do lábio, excitado agora, o saquê ajudando sua língua, ainda mais porque, agora, começava a acreditar que era possível que aquele jovem pudesse ajudar a resolver o enigma.
— Desculpe se sou complicado, mas sabemos o que eles fazem, embora ainda não como fazem. Talvez o seu Taira, esse gai-jin que é uma fonte de informações, que você drena com tanta habilidade, talvez ele saiba, e possa explicar como fazem isso, as artimanhas, os segredos. Depois, você nos conta tudo, e poderemos tornar o Nipão tão forte quanto cinco Inglaterras. Quando vocês alcançarem sonno-joi, nós e os outros emprestadores de dinheiro poderemos nos unir para financiar todos os navios e armas de que o Nipão vai precisar...
Cauteloso, ele discorreu sobre o tema, respondendo às perguntas com eloqüência, guiando Hiraga, ajudando-o, lisonjeando-o, enchendo-o de saquê e informações, impressionado com sua inteligência, ao longo das horas, atiçando sua imaginação, até o pôr-do-sol.
— Dinheiro, hem? Eu ad... eu admito, shoya — disse Hiraga, a voz um pouco engrolada, meio tonto do álcool, a cabeça quase explodindo com tantas idéias novas e inquietantes, que conflitavam com muitas convicções profundas — admito que o dinheiro nunca me inte... nunca me interessou. E jamais entendi direito o dinheiro, apenas sua falta.
Um arroto quase o sufocou, e ele continuou:
— Mas acho que posso entender agora e creio que Taira vai me contar tudo.
Hiraga tentou se levantar, mas não conseguiu.
— Posso lhe oferecer um banho e mandar chamar uma massagista?
O shoya persuadiu-o a aceitar com a maior facilidade, chamou um servo para ajudá-lo e entregou Hiraga a mãos fortes e gentis... que logo o fizeram roncar, mergulhar no esquecimento.
— Bom trabalho, Ichi-chan — sussurrou sua esposa, quando era seguro, fitando-o com uma expressão radiante. — Você foi perfeito, neh?
O shoya também se mostrava radiante e falou baixinho:
— Ele é perigoso, sempre será, mas demos o primeiro passo, e essa é a parte mais importante.
Ela acenou com a cabeça, satisfeita porque o marido acatara seu conselho de chamar Hiraga naquela tarde, estar armado, e não ter medo de usar a ameaça. Ambos conheciam os riscos, mas também, ela lembrou a si mesma, o coração ainda batendo forte de escutar a confrontação, esta é uma oportunidade enviada pelos deuses, e os ganhos são proporcionais aos riscos. Com o êxito, refletiu ela, rindo para si mesma, ganharemos a posição de samurais, nossos descendentes serão samurais, e meu Ichi será um dos superiores da Gyokoyama.
— Foi muito sensato ao dizer que apenas dois escaparam, não três, e ao não revelar o que mais sabemos.
— É importante manter alguma coisa em reserva. Para controlá-lo ainda mais.
Ela acariciou o marido, numa atitude maternal, tornou a dizer como ele era esperto, e não o lembrou que isso também fora sugestão sua. Deixou que sua mente vagueasse por um momento, ainda perplexa pela partida dos dois shishi para Iedo, assim se arriscando à captura ou traição. E ainda mais desconcertante era o motivo pelo qual a moça, Sumomo, a possível futura esposa de Hiraga, ingressara na casa de Koiko, a mais famosa cortesã de Iedo, agora a dama de prazer de lorde Yoshi. Não dava para entender. Um pensamento errante desabrochou.