— Ótimo. Sir Morgan mandou eu lhe entregar isto quando chegássemos. Norbert tirou um envelope de sua valise e entregou-o. Quanto mais pensava a respeito de toda a viagem, mais aturdido ficava. Tyler Brock não fora a Xangai. Em vez disso, enviara um bilhete curto, cumprimentando Greyforth e dizendo-lhe que obedecesse a seu filho, Morgan, como se fosse ele a dar as ordens. Sir Morgan Brock era barrigudo e calvo, não tão rude quanto o pai, mas também barbudo, e com o mesmo temperamento mesquinho. Ao contrário do pai, era treinado em Londres, na Thradneedle Street, o centro dos mercados de valores do mundo, e de todo o comércio internacional. Assim que Greyforth chegara, Morgan expusera os planos para a destruição da Struan.

Era infalível.

Há um ano, ele, o pai e seus associados na diretoria do Victoria Bank, de Hong Kong vinham comprando as promissórias da Struan. Agora, com o apoio de toda diretoria, só precisavam esperar até o dia 30 de janeiro para a execução das dívidas. Não havia a menor possibilidade de a Struan saldar tudo nesse prazo. Na data fatal, o banco passaria a possuir a Struan, com todo o seu patrimônio. Quando Morgan açambarcara o mercado de açúcar havaiano, com uma manobra astuciosa para excluir a Struan, que contava com os lucros anuais dessas operações para pagar o serviço das dívidas, fizera com que a liquidação se tornasse inevitável. E desfechara outro golpe, ainda maior: com extrema habilidade, Morgan negociara essas colheitas com importadores da União e da confederação, em troca de mercadorias do Norte e algodão do Sul para o imenso mercado britânico, que só podia ser atendido, nos termos da lei, por navios britânicos... os navios deles.

— É um esquema genial, Sir Morgan, meus parabéns! — dissera Norbert, impressionado, pois faria com que a Brock se tornasse a mais rica companhia comercial da Ásia, a Casa Nobre, e garantiria seu estipêndio de cinco mil guinéus por ano.

— Compraremos a Struan a dez pennies por libra do banco, isso já foi acertado, Norbert, a frota, tudo — explicara Sir Morgan, a barriga enorme tremendo no riso. — Você poderá se aposentar em breve, e estamos gratos por seus serviços. Se tudo correr bem em Iocoama, pensaremos em mais cinco mil por ano como gratificação. Cuide bem do jovem Edward, mostre-lhe tudo.

— Com que propósito? — indagara Norbert, atordoado pela perspectiva daquela vasta soma todos os anos.

— Com qualquer propósito que eu quiser — respondera Sir Morgan, em tom brusco. — Mas já que pergunta, talvez eu queira que ele assuma o comando no Japão, tome o seu lugar quando você for embora, se tiver condições para isso. A Rothwell está lhe dando um mês de licença... — Era a companhia em que Gornt trabalhava há três anos, uma das mais antigas empresas em Xangai, associada da Cooper-Tillman, a maior companhia comercial americana na China, e com a qual tanto a Brock quanto a Struan mantinham amplas relações de negócios. —... e será tempo suficiente para o rapaz decidir. Talvez ele o substitua quando você se aposentar.

— Acha que ele tem experiência suficiente, Sir Morgan?

— Cuide para que ele tenha até o momento em que você se retirar... é a sua função, ensinar tudo, preparar o rapaz. Mas não pressione demais, pois não quero que ele fique apavorado.

— Quanto devo lhe contar?

Depois de pensar um pouco, Sir Morgan dissera:

— Tudo sobre os nossos negócios no Japão, o plano de vender armas e contrabandear ópio, se aqueles desgraçados no Parlamento conseguirem o que estão querendo. Relate a ele suas idéias sobre a abertura do comércio de ópio, ignorando qualquer embargo, se houver algum, mas não diga nada sobre as provocações a Struan ou sobre o nosso plano para destruí-los. O rapaz já conhece Os Struans, não existe nenhum amor por eles na Rothwell. Sabe que eles são a escória, está a par de todas as iniqüidades cometidas pelo velho Dirk, como assassinar meu meio-irmão, e todo o resto. É um bom rapaz, e por isso pode contar o que quiser... mas não fale sobre o açúcar!

— Como achar melhor, Sir Morgan. O que me diz do dinheiro em espécie e papéis que eu trouxe? Vou precisar de reposição para pagar as armas, sedas e outras mercadorias este ano.

— Mandarei de Hong Kong quando voltar. Outra coisa, Norbert: você fez um bom trabalho ao passar a perna na Struan na oferta dos japas para a exploração de ouro... se isso der resultado, terá uma participação. Quanto a Edward, depois do mês de experiência, mande-o de volta a Hong Kong, com um relatório confidencial para o Velho. Gosto do rapaz, ele é muito bem considerado em Xangai e na Rothwell... e filho de um velho amigo.

Norbert especulara sobre quem seria o “velho amigo” e sobre a dívida que Sir Morgan tinha com o homem para valer tanto empenho, já que era insólito para ele ser gentil com alguma pessoa. Mas era esperto demais para perguntar e se mantivera calado, feliz por saber que o problema de permanecer nas boas graças dos Brocks não o perturbaria por muito mais tempo.

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