Edward Gornt demonstrara ser bastante simpático, retraído, um bom ouvinte, mais inglês do que americano, inteligente, e um não-bebedor, o que era raro na Ásia. A avaliação imediata de Greyforth fora a de que Gornt era totalmente inadequado ao comércio na China, rude, aventureiro, com muita bebida... um peso-leve em tudo, exceto nas cartas. Gornt era um excepcional jogador de bridge, tinha muita sorte no pôquer, uma tremenda virtude na Ásia, mas mesmo nisso era acadêmico, pois nunca jogava com apostas altas.

Ele estava convencido de que Edward Gornt não agradaria aos Brocks por muito mais tempo e nada na viagem de volta o fizera mudar de idéia. De vez em quando, percebera certa estranheza no fundo de seus olhos. O garoto não passa de um fraco, está fora de sua profundidade, e sabe disso, pensou ele, observando-o ler a carta de Morgan. Mas não importa; se alguém pode fazê-lo crescer, sou eu.

Gornt dobrou a carta, guardou-a no bolso, junto com o maço de dinheiro que o envelope continha.

— Sir Morgan é muito generoso, não acha? — comentou ele, com um sorriso. — Nunca pensei que ele... mal posso esperar para começar, aprender tudo. Gosto de trabalho e ação, farei o melhor que puder para agradá-lo, mas ainda não tenho certeza se devo deixar a Rothwell, e... nunca pensei que ele sequer cogitaria de mim para chefiar a Brock no Japão, se e quando você se aposentar. Nunca.

— Sir Morgan é um patrão exigente, difícil de agradar, como o nosso tai-pan, mas generoso se você fizer o que ele mandar. Um mês será suficiente. Sabe manejar uma arma?

— Claro.

A súbita franqueza deixou Norbert surpreso.

— De que tipo?

— Revólveres, pistolas, rifles, espingardas. — Outro sorriso. — Nunca matei ninguém, nem índios, mas fui o segundo colocado no tiro ao prato em Richmond, há quatro anos. — Um momento de hesitação. — Esse foi o ano em que fui para Londres, a fim de ingressar na Brock.

— E não queria partir? Não gostou de Londres?

— Não e sim. Minha mãe morrera e meu pai achou que seria melhor que eu saísse para o mundo, Londres sendo o centro do mundo, por assim dizer. Londres é espetacular, Sir Morgan foi muito gentil, o homem mais bondoso que já conheci.

Norbert esperou, mas Gornt não ofereceu mais nenhuma informação, absorto em seus pensamentos. Sir Morgan só lhe dissera que Gornt passara um ano satisfatório com a Brock em Londres, junto com o último e mais novo filho de Tyler Brock, Tom. Depois desse ano, ele arrumara o emprego na Rothwell.

— Conhece Dmitri Syborodin, que dirige a Cooper-Tillman aqui?

— Não, senhor. Só de reputação. Meus pais conheciam Judith Tillman, a viúva de um dos sócios originais. — Os olhos de Gornt se contraíram, e Norbert tornou a notar algo estranho neles. — Ela também não gostava de Dirk Struan, odiava-o, para ser mais preciso, culpava-o pela morte de seu marido. Os pecados dos pais passam adiante, não é mesmo?

Norbert riu.

— É verdade.

— Mas falava sobre Dmitri Syborodin, não é, senhor?

— Vai gostar dele, é sulista também. — O sino de desembarque soou. Os olhos de Norbert faiscaram. — Vamos para terra. Haverá ação muito em breve.

— Homem quer ver tai-pan, hem? — disse Ah Tok.

— Fale como civilizada, mãe, não essa algaravia — respondeu Malcolm, em cantonês. Ele estava na janela do escritório, com o binóculo, estivera observando o desembarque dos passageiros do navio de correspondência. Vira Norbert Greyforth, e agora sentia-se muito bem. — Que homem?

— O demônio estrangeiro bonzo que mandou chamar, o bonzo que cheira mal — murmurou ela. — Sua velha mãe está trabalhando demais e seu filho não quer escutar! Devemos voltar para casa.

— Já lhe disse para não mencionar a volta para casa — declarou Malcolm, ríspido. — Faça isso mais uma vez e a mandarei embora na próxima lorcha imunda, onde vai vomitar até seu coração, se tiver um, e no mínimo o deus do mar vai engoli-la! Mande o demônio estrangeiro entrar.

Um sorriso surgiu em seu rosto, e um pouco da sensação agradável retornou. Ah Tok saiu resmungando. Há dias que vinha insistindo na volta a Hong Kong, por mais que ele lhe dissesse para não fazê-lo. Malcolm tinha certeza que ela recebera ordens de Gordon Chen para pressioná-lo.

— Mas não voltarei enquanto não estiver pronto! — disse ele, em voz alta.

Claudicando, foi para sua escrivaninha, contente porque em breve acertaria as contas com Norbert e poria em execução seu glorioso plano.

— Bom dia, reverendo Tweet. Foi muita gentileza sua atender de imediato ao meu chamado. Xerez?

— Obrigado, Sr.... hum... tai-pan. Abençoado seja.

O xerez foi tomado num único gole, nervoso, embora Malcolm tivesse escolhido, deliberadamente, um copo grande.

— Admirável... tai-pan. Ah, quero, sim, obrigado. Mais uma dose, pequena desta vez. — O homem desmazelado acomodou-se na cadeira alta, com um sorriso apreensivo. A barba era toda manchada de tabaco. — Em que posso ajudá-lo?

— É sobre miss Angelique e eu. Quero que nos case. Na próxima semana.

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