— Brock controla a Rothwell?
— Controlou, por algum tempo, apenas o suficiente para demitir Rothwell e todos os seus diretores e nomear novos. Quando Jeff Cooper descobriu, tinha bastante influência para forçar o velho Brock a fazer um acordo particular, meio a meio. Em troca, Jeff dirigiria a companhia e manteria o acordo em segredo, em particular da Struan. O acordo continua em vigor.
— Dmitri sabe?
— Não. Nem o Sr. Greyforth. Descobri os detalhes por acaso, quando estava em Londres.
A mente de Malcolm funcionava a todo vapor. A Struan mantivera seu relacionamento com a Rothwell ao longo dos anos, mas ninguém jamais dissera que haviam sido tratados de uma maneira indevida ou ludibriados. Depois, uma coisa que Gornt dissera aflorou em sua mente.
— Morgan sabe que você descobriu tudo?
— Escrevi para ele em Londres, quando mamãe morreu. Ele respondeu que era tudo novidade, e negou, mas me convidou a visitá-lo, se algum dia fosse a Londres. E eu fui. Mais uma vez, ele negou. Nada tinha a ver com isso, garantiu, fora culpado pelos atos de outro aprendiz, não fizera coisa alguma. Eu passava necessidade na ocasião, por isso ele me arrumou um emprego e depois me ajudou a ingressar na Rothwell.
Gornt suspirou.
— Mamãe me contou que Morgan, ao ser confrontado por Rothwell, disse que “casaria com a vagabunda se seu dote fosse de dez mil libras por ano”. — Um tremor percorreu seu corpo, embora o rosto não se alterasse, nem a voz suave. — Eu poderia perdoar tudo a Morgan, mas nunca isso, nunca “a vagabunda”. Foi Rothwell quem escreveu isso. Ele já morreu, mas sua carta continua intacta. Obrigado por escutar.
Gornt levantou-se, esticou-se todo, encaminhou-se para a porta.
— Espere! — disse Malcolm, surpreso. — Não pode parar nesse ponto!
— Nem tenciono, Sr. Struan, mas esse tipo de conversa, confissão talvez seja uma palavra melhor, é extenuante. E também não devo passar tempo demais aqui ou o Sr. Greyforth pode ficar desconfiado. Acertarei as pistolas, o disparo a vinte passos e voltarei em seguida.
— Espere um pouco, pelo amor de Deus! De que ajuda precisa? E por que eu deveria ajudá-lo? O que quer de mim?
— Não muito, na verdade... você pode matar Norbert Greyforth, mas isso não é essencial. — Gornt riu, mas logo voltou a se mostrar sério. — Mais importante é o que eu posso fazer por você. Antes do final de janeiro, os Brocks destruirão a Struan, mas isso você já sabe ou deveria saber. Posso detê-los, por um preço. Como Deus é testemunha, posso fornecer a informação capaz de virar o ímpeto dos Brocks contra eles próprios e destruir sua companhia para sempre.
Malcolm sentiu-se tonto. Se conseguisse livrar a Struan da situação crítica em que se encontrava, sua mãe concederia tudo o que quisesse. Conhecia-a muito bem. Ela me dará tudo o que eu pedir, qualquer coisa, pensou ele; se eu quisesse que ela se tornasse católica, faria até isso!
Qualquer que fosse o custo, ele sabia que pagaria, e pagaria com a maior satisfação.
— O preço... além da vingança?
— Quando eu voltar.
Malcolm esperou o dia inteiro, mas o estranho não voltou. O que não o preocupou. Jantou sozinho naquela noite. Angelique dissera estar cansada, eram festas demais, muitas noites acordada; dormir cedo lhe faria bem.
— Assim, meu querido Malcolm, vou comer uma refeição leve no quarto, escovar os cabelos e mergulhar nos sonhos. Esta noite eu o amo e o deixo... ficará abandonado.
Ele não se importou. Seu cérebro transbordava com tanta esperança que tinha receio de lhe confidenciar tudo, se ela ficasse... e quando Jamie apareceu, no início da noite, teve de fazer um grande esforço para se controlar e não revelar a fantástica notícia.
— Heavenly encontrou uma solução? — perguntou Jamie.
— Ainda não. Por quê?
— Você parece tão... tão... como se todo o peso do mundo tivesse sido removido de seus ombros. Não o vejo com uma cara tão boa há semanas. Recebeu boas notícias, não é?
Malcolm sorriu.
— Talvez eu tenha superado uma etapa e agora começo a melhorar de fato.
— Espero que sim. Seu acidente por cima de todo o resto... Juro que não sei como você consegue. Com tudo o que aconteceu nas últimas semanas, eu me sinto muito cansado, e o tal de Gornt foi a última gota. Há alguma coisa nele que me assusta.
— Como assim?
— Não sei, apenas um pressentimento. Talvez ele não seja tão inofensivo quanto aparenta. — Jamie hesitou. — Tem um minuto para conversar?
— Claro. Sente-se. Quer um conhaque? Pode se servir.
— Obrigado.
Jamie serviu-se uma dose da garrafa no aparador, depois puxou a outra cadeira de encosto alto para o lado do fogo, sentou diante de Malcolm. As cortinas haviam sido fechadas para a noite, o aposento era aconchegante. A fumaça de lenha exalava um cheiro agradável, e o som dos sinos dos navios da esquadra na baía também soava confortador.
— Duas coisas: de um jeito ou de outro, quero voltar a Hong Kong por alguns dias, antes do Natal.
— Para ver a mãe?
Jamie acenou com a cabeça, tomou um gole do conhaque.