— Não é problema seu, e sei muito bem como se sente. — Ele tornou a olhar para Gornt. — Jamie está certo. Norbert tem se comportado de uma maneira deplorável.

Gornt não respondeu. Malcolm deu de ombros, sorriu.

— Destino. Também não é problema seu, Sr. Gornt. Portanto, já foi participante uma vez e padrinho duas vezes. É evidente que venceu. E o outro homem?

— Não o matei, senhor, nem tentei matá-lo. Apenas o feri.

Os dois se observaram, avaliando um ao outro. Jamie disse, nervoso:

— Então está tudo acertado.

— Isso mesmo, exceto as armas. O Sr. Greyforth escolhe espadas. Malcolm ficou boquiaberto, Jamie empalideceu.

— Pistolas de duelo foi o combinado — disse Jamie. — Acertamos isso.

— Sinto muito, senhor, mas não foi nada acertado. O Sr. Greyforth, como a parte desafiada, tem o direito de escolher as armas.

— Mas foi acer...

— Jamie, deixe-me cuidar disso — interveio Malcolm, atônito com seu desapego, já esperando alguma sujeira de Norbert. — Sempre foi presumido que éramos cavalheiros e usaríamos pistolas.

Lamento, mas não são essas as minhas instruções, senhor. Quanto a cavalheiros, meu principal assim se considera e escolhe defender sua honra com Uma espada, o que é bastante costumeiro.

— Obviamente, isso não é possível.

— O Sr. Greyforth também disse... devo ressalvar que não aprovo, e foi o que declarei a ele... também disse que se o senhor quiser poderia concordar com facas, espadas ou lanças.

Jamie começou a se levantar, mas Malcolm o deteve.

— No meu atual estado, isso é impossível — disse ele, para depois se controlar e acrescentar, com firmeza: — Se é uma manobra para Norbert resguardar sua honra, me humilhar e cancelar o duelo, então eu o desprezo, e sempre o considerarei indigno.

Jamie admirou e detestou essa explosão, ao mesmo tempo, mas de repente compreendeu que poderia ser um meio de salvar as aparências para ambos.

Tai-pan, não acha que...

— Não. Sr. Gornt, é evidente que não posso, neste momento, sequer usar uma espada. Por favor, peça a Norbert para aceitar pistolas.

— Pois não, senhor, claro que pedirei. O primeiro dever de um padrinho é tentar promover uma reconciliação e parece-me que há espaço suficiente para os dois cavalheiros na Ásia. Falarei com o Sr. Greyforth.

— Poderá me encontrar aqui a qualquer momento, Sr. Gornt — disse Jamie. — Tudo o que eu puder fazer para ajudar a acabar com essa insanidade, basta me avisar.

Gornt acenou com a cabeça, começou a se levantar, mas parou quando Malcolm indagou:

— Poderíamos ter uma conversa em particular, Sr. Gornt? Não se importa, não é, Jamie?

— Claro que não. — Jamie apertou a mão de Gornt, e acrescentou para Malcolm: — Há uma reunião de todos os mercadores para discutir a bomba de Sir William, ao meio-dia, no clube.

— Eu irei, Jamie, embora tenha certeza de que não haverá qualquer discussão objetiva, apenas muitos gritos e explosões.

— Também acho. Até mais tarde, tai-pan.

Jamie se retirou. A sós na sala, os dois homens se estudaram, mais uma vez.

— Está a par da estupidez do Parlamento?

— Estou, sim, senhor. Todos os governos são estúpidos.

— Gostaria de me acompanhar num copo de champanhe?

— Uma celebração?

— Isso mesmo. Não sei por que, mas me sinto satisfeito por conhecê-lo.

— Ah, então sente a mesma coisa? Não é certo, não acha?

Malcolm sacudiu a cabeça, tocou a sineta. Chen apareceu. Depois que o champanhe foi aberto e servido, ele saiu, os olhinhos escuros saltando de um homem silencioso para outro homem silencioso.

— Saúde!

— Saúde! — respondeu Gornt e saboreou o champanhe.

— Tive a impressão de que você queria me falar em particular.

Gornt riu.

— Queria mesmo. É perigoso um inimigo ser capaz de ler seus pensamentos, hem?

— E muito, só que não precisamos ser inimigos. A Rothwell é uma boa cliente, o ódio e rivalidade entre os Struans e os Brocks não devem afetá-lo, independente do que Tyler ou Morgan possam dizer.

Baixou os olhos para o copo de cristal lapidado e as borbulhas do champanhe indagando-lhes se estava correto ao pensar que o momento oportuno era agora ou se deveria esperar. Os olhos castanhos-amarelados tornaram a avaliar Struan. Decidiu correr o perigo.

— Tem a reputação de gostar de segredos e ser digno de confiança.

— Você também é assim?

— Em questões de honra, sou. Sua reputação... gosta de histórias, legendas?

Malcolm fez um esforço para se concentrar, desconcertado com a irrealidade da reunião e com o homem à sua frente.

— Algumas mais do que outras.

— Estou aqui sob um falso pretexto. — O sorriso repentino de Gornt iluminou a sala. — Por Deus, não posso acreditar que estou de fato aqui, com o futuro tai-pan da Casa Nobre! Esperei e planejei por tanto tempo para esta reunião e agora chegou o momento. Antes de vir para cá, eu não tinha a menor intenção de dizer qualquer coisa agora, exceto o que o Sr. Greyforth me pediu para falar. Mas agora?

Ele ergueu o copo.

— À vingança.

Malcolm pensou a respeito por um instante, sem medo, fascinado, depois bebeu, serviu-se de mais champanhe.

— É um bom brinde na Ásia.

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